O grito do Ipiranga grego

De repente, ouviu-se lá ao fundo, baixinho, uma vozinha que já fora forte como um trovão, há muito muito tempo, mas que foi perdendo força devido às agruras da História e, a bem da verdade, também à inércia do seu povo. Era a voz de um povo mais antigo e maior do que todos os povos que o escutavam, um povo-pai, um povo-tutor, a quem os outros povos devem tantos saberes, tantos pensares e tantos mitos e crenças.
Após anos de sacrifícios e duras restrições orçamentais, que retiraram a dignidade a um povo outrora grandioso e mergulharam o país numa grave crise humanitária, a Grécia resolveu dar o grito do Ipiranga e libertar-se da opressão europeia. Começou cheia de ânimo alimentado pela antevisão de um futuro menos negro, mas rapidamente o peito cheio foi emagrecendo, desalentado pela implacável Europa, que acusa e impõe lá do alto do seu trono. As reivindicações foram dando lugar a cada vez mais cedências, necessárias sempre que se quer atingir algum objectivo, e até aí os gregos demonstraram boa-fé e jogo de cintura. E começaram a perceber que não podem continuar a viver com salários e subsídios incomportáveis, nem a fingir que um país pode ser soberano se os seus cidadãos não pagarem impostos. Um perdão da dívida seria inadmissível e injusto; sou de opinião de que, quem tem capacidade para fazer dívidas, também deve ter a responsabilidade de as saldar. Embora a Alemanha já tivesse beneficiado de um enorme perdão de dívida no pós-II Guerra Mundial, incluindo por parte da Grécia, apesar de ter provocado a morte de milhões de pessoas e de ter destruído dezenas de países. Isso já lá vai, mas parece que os gregos não esqueceram, e ainda bem; todavia, de nada lhes vale reclamar agora as indemnizações de guerra, se quiserem ser levados a sério pela Europa. Ainda assim, faria bem à Alemanha também não esquecer o seu enorme telhado de vidro.
Os esforços gregos esbarraram contra uma Europa cega, manipulada por dois ou três países movidos por um egoísmo sem precedentes e que arrastam os restantes mais de vinte, pequeninos não devido à sua dimensão geográfica, mas ao seu seguidismo mesquinho.
Neste rol de países inclui-se Portugal. A atitude mais inteligente seria, no mínimo, não dificultar a causa grega, para depois podermos reclamar também para nós benefícios semelhantes. Em vez disso, os governantes portugueses acharam melhor continuar a ser desprezíveis lacaios da Alemanha. Desta forma, comprometeram toda e qualquer hipótese que pudéssemos almejar, porque em caso de cedência por parte da Europa, não teríamos moral para vir pedir aquilo que tínhamos rejeitado. Alguém lhes agradeceu? Claro que não. Dias depois, logo vieram colocar Portugal em vigilância por risco de incumprimento. Ainda bem que acabámos de sair “com sucesso” de um programa de ajustamento…

Tenho vergonha de ter um governo que humilhou desta forma um país como a Grécia, que tanto deu ao mundo. E desprezo um governo que não teve a mesma coragem que teve o governo grego, quase inexperiente, de reclamar junto dos parceiros europeus um alívio das medidas de austeridade, para que o povo português pudesse recuperar alguma da sua dignidade. E deviam tê-lo feito precisamente porque não somos iguais à Grécia, temos condições que os gregos não têm para reivindicarmos uma posição melhor.
Ao cabo destas semanas de reuniões e negociações, é verdade que a Grécia não conseguiu ainda nada de concreto. Mas uma coisa conseguiu, que marca uma viragem política e económica: abanou uma Europa totalitária com um grito de esperança, que vai continuar a ecoar.