Passos, O Imperfeito

Já muito foi dito e escrito sobre a dívida de Pedro Passos Coelho à Segurança Social. Muitos criticam o aproveitamento político. Outros falam em falta de moral do Primeiro-ministro (PM). Acho que todos têm razão.
É um caso político, porque após três anos de dura austeridade, em que foi exercida uma pressão incrível para que os contribuintes saldassem e cumprissem as suas obrigações contributivas, com penhoras impiedosas para quem não as cumpre, sendo indiferente se tem ou não meios financeiros para tal, torna-se difícil para os portugueses entender que o grande líder desta austeridade não a aplique a si próprio em algum momento da sua vida. Ainda para mais numa altura em que a Segurança Social portuguesa não goza de perfeita saúde em matéria de fundos, e que as reformas e subsídios de doença dos nossos pais e as nossa próprias não são um dado adquirido, como se tem visto pelos sucessivos cortes e adiamentos da idade da reforma. E para espezinhar ainda mais o miserável devedor, a maioria PSD e CDS rejeitou no Parlamento duas propostas do PS e BE para suspender penhoras e vendas coercivas de casas de habitação própria permanente destinadas a pagar dívidas ao fisco.

Atenção, não advogo que se deva pura e simplesmente não pagar impostos: nessa matéria sou intransigente, e se todos pagassem o que devem talvez não faltasse tanto para todos.

Por estas mesmas razões e por outras, é também um problema de falta de moral do nosso PM. No Expresso do sábado passado, dia 7 de Março, foram publicados testemunhos de alguns amigos de juventude de Passos Coelho, que basicamente retratam-no como um pária: trabalhava pouco, dormia até tarde e nunca tinha dinheiro. Portanto, o homem que está à frente dos destinos de todo um país já foi, afinal, uma pessoa que nem escolheríamos para administrar o nosso condomínio. Parece que a sua verticalidade alemã sofreu outrora alguns reveses curvilíneos…

Depois, vieram as atabalhoadas explicações do PM: não sabia, desconhecia a lei… Ora em 1999, numa das actualizações dessa lei, Pedro Passos Coelho era deputado, votou-a e até interveio no debate. Alguém é capaz de facultar uma embalagem de Memofante ao senhor?

E num triunfante rasgo de auto-comiseração, de quem tenta justificar o injustificável, alega que não é perfeito. Ninguém duvida. Mas a imperfeição e a ignorância nunca serviram a ninguém para ilibar de dívidas. Só desceu mesmo rasteirinho quando achou que seria boa estratégia comparar-se a José Sócrates, alguém que está preso acusado de corrupção, e que apesar disso ainda tem direito a presunção de inocência. Falou o desespero.

Passos Coelho pagou, é certo, mas só depois de pressionado por um jornalista. Porque não o fez logo em 2012, quando soube da dívida que alegadamente desconhecia ter de pagar? Afinal, o imperturbável Passos é pressionável. E no meio desta trapalhada de explicações, parece que ficou esquecido que ainda falta pagar quase metade da dívida. Isto porque Passos Coelho esqueceu-se de descontar durante 58 meses, mas só pagou agora o montante relativo a 32 meses porque, diz, foi esse o montante exigido pela Segurança Social.

Lá se foi a imagem de rigor e seriedade de Passos Coelho. Fica o problema de carácter de um cidadão que descobriu que não é perfeito. O cognome já ninguém lho tira.