A Mariano Gago

Tocou as nossas vidas sem se querer fazer notar. Mas notou-se, sem nunca fazer alarde de si próprio. Também não precisava; o produto do seu trabalho dizia tudo. 
E que trabalho! Portugal foi ciência e inovação graças a Mariano Gago. Antes dele, a ciência portuguesa acontecia apenas num tubo de ensaio; com ele, há grandes centros de investigação, há doutorados, há projectos aliciantes, há investigadores premiados, há Centros Ciência Viva, há excelentes cientistas portugueses lá fora e cientistas estrangeiros cá dentro, há cooperação com a ESA e a NASA e há software português no Espaço. 
Foi sempre um ministro discreto. Não me lembro de que tenha protagonizado “casos”. Preferia divulgar os resultados do seu trabalho e não a sua pessoa. Mas foi dos que mais revolucionou a sua tutela. E é inacreditável que, em menos de quatro anos, o actual governo tenha conseguido destruir tanto do que Mariano Gago construiu.
Tenho a sorte de conviver diariamente com vários cientistas. Diz um deles, que o conheceu pessoalmente, que ele “tinha sempre um brilhozinho nos olhos de quem está ansioso pela próxima descoberta”. Foi concerteza esse brilhozinho que entusiasmou tantos jovens durante uma a duas décadas, hoje brilhantes investigadores e técnicos que ajudaram a colocar Portugal no mapa da Ciência e da Tecnologia. A Mariano Gago o devemos. 
Para sempre se fecharam os olhos do pai da ciência moderna portuguesa. Deixou-nos o brilhozinho.