O ciclo sem fim do terrorismo

Na época pascal que acabámos de viver, em que são, ano após ano, recapitulados os acontecimentos da vida de Jesus Cristo e todas as circunstâncias envolventes da época (e ainda bem que são, porque nós somos a nossa história e só compreenderemos os tempos actuais conhecendo de onde vimos e de que somos feitos), vem-me ao pensamento o carácter cíclico do extremismo, das perseguições e do terrorismo.

Diariamente, somos assaltados por notícias e imagens horrendas da violência e brutalidade praticadas por extremistas, neste caso islâmicos. Vemos que hoje os cristãos são perseguidos e assassinados apenas por isso: por serem cristãos. E os filmes e documentários históricos lembram que já o foram outrora. Tal como os judeus, os budistas e mesmo os islamitas. O tempo de cada um vai-se repetindo ao longo da História.
Desengane-se quem pensa que a principal razão que move cada um destes períodos de perseguições é a religião. Nunca é, pelo menos para as principais cabeças perpetradoras. Alguém acredita que o auto-intitulado califa do estado islâmico (não tem direito a iniciais maiúsculas e nem se devia chamar estado, porque um estado não é definido por um grupo de assassinos) anda tão determinado em gastar dinheiro em armas por simples fervor religioso? Poderá ser assim com muitos dos elementos do grupo, mas apenas os pobres de espírito (para não dizer burros), que aceitam perder a vida fazendo-se explodir, porque acham que isso fará Alá contente. Os líderes, esses sim inteligentes, fazem as guerras e perseguições por razões políticas e económicas de conquista de territórios estratégicos e de poços de petróleo. Sempre foi assim, independentemente da religião dominante e da dominada, e sempre assim será, porque os ciclos continuarão a suceder-se.
Mas, por mais livros de História que se leiam e documentários que se vejam, parece que algumas pessoas, alguns líderes, nunca aprendem. Os terroristas de hoje do tal estado islâmico resultam da incursão da coligação dos Estados Unidos, Espanha e Reino Unido no Iraque e da intervenção na Síria contra o governo de Assad, o Boko-Haram veio após o auxílio da França ao combate aos terroristas somalis. A Al-Qaeda foi o fruto da guerra do Golfo contra o Iraque. Os talibãs afegãos surgiram após a intervenção americana contra a Rússia nesse país. E podia continuar por aqui fora.

Sempre que o ocidente se intromete, com falso espírito de bom samaritano na defesa dos povos oprimidos, cria-se um grupo terrorista mais extremista, que combate os países ocidentais com as próprias armas que estes lhes forneceram, fazendo guerras de brutalidade e mortalidade crescentes.
Quando vamos parar? Provavelmente nunca, porque estes “auxílios” também são ditados por motivos políticos e económicos e não por solidariedade; nesse aspecto, não há qualquer diferença entre uns e outros. E agora, mais uma vez, vai-se querer fazer uma guerra nestes países onde o estado islâmico tem dizimado populações e património, para armar mais um exército extremista que irá espalhar o terror entre os europeus e americanos daqui a uns dez anos.
Não concordei com nenhuma das invasões, incursões, ofensivas ou democratizações que o ocidente fez, porque não foram mais do que ataques cegos a populações, que vitimaram mais civis do que alvos políticos e militares estratégicos. Além da morte e destruição, o seu legado foi apenas o de perturbar um frágil equilíbrio mantido entre povos e etnias que convivem (mal) nas mantas de retalhos que são os mapas dos seus países. O resultado foi um vazio de poder e um sentimento de ódio contra o ocidente, que abriu caminho aos grupos extremistas e ao terrorismo que temos conhecido. Quanto mais se intervém, mais piora a situação daqueles povos e, consequentemente, também dos ocidentais.
Cada povo, cada nação, tem de fazer a mudança à sua própria medida. Assim aconteceu em Portugal, em Espanha em tantos outros países de todos os continentes em que regimes caem para dar lugar a outros. Temos de aceitar que a democracia, que é tão cara à Europa (e de que os norte-americanos apregoam ser os donos, mas a sua democracia deixa-me algumas dúvidas), pode não ser o regime certo para os países árabes e africanos, pelo menos não para já. Eles próprios têm de encontrar e lutar pelo seu futuro, de acordo com a sua cultura e crenças.

Entretanto, porque o terrorismo e a jihad são de facto uma ameaça, não só para as nações islâmicas mas também para as democracias ocidentais, acho que cada país deve combater internamente os jihadistas que nascem dentro das suas próprias fronteiras, inibindo as suas acções, impedindo a sua entrada e saída do país, vigiando e detendo os que difundem o extremismo e planeiam ataques terroristas. E aqui, a obsessão com a publicidade nas redes sociais a que se tem assistido com os novos grupos é uma forma de exposição que não existia anteriormente, mas que acaba por facilitar o trabalho das autoridades.
É lamentável que os principais estadistas durante décadas não tenham aprendido com os erros dos seus antecessores. Espero sinceramente que, desta vez, tenham aprendido qualquer coisa, o suficiente para que não vão travar mais uma guerra que desagregue uma série de povos e nações e semeie o ódio gerador de mais um grupo extremista.