O império alemão – take 3

Nas duas últimas semanas, tem-se assistido no semanário Expresso a uma “troca de correio” entre o comentador Miguel Sousa Tavares e o cidadão Wolfgang Kemper, alemão residente em Portugal há 50 anos.
A contenda diz respeito à relação entre a Alemanha e os países do sul da Europa, particularmente Portugal e Grécia. A posição alemã tem sido várias vezes criticada por Miguel Sousa Tavares no referido jornal. O Sr. Kemper apercebeu-se por fim, como muitos seus compatriotas já se devem ter apercebido, de que reina entre os povos resgatados ou à beira do resgate um sentimento de revolta e de injustiça em relação aos actuais governantes alemães, que tudo têm feito para colocar sob o seu jugo esses países, quais imperadores ditatoriais de tempos idos.
Não tenho nada contra o senhor Wolfgang Kemper, que aliás nem conheço. Da mesma forma, também não tenho especial relação com Miguel Sousa Tavares, a não ser ler de vez em quando a sua opinião, e nem sequer sei se partilhamos a mesma ideologia. Mas, neste caso, subscrevo as críticas à Alemanha e gostaria de explicar ao Sr. Kemper e a todos os alemães o que os povos europeus em crise sentem actualmente.
Nos últimos anos, têm-nos sido impostas medidas de contenção orçamental de uma austeridade tremenda. Os portugueses viram os seus salários baixar quase 25% face aos dos alemães. O desemprego continua a atingir milhares de famílias. Grande parte dos portugueses trabalha mais de 8 horas por dia, sem que lhe sejam pagas horas extraordinárias, como se isso fosse um dever implícito de cada trabalhador. As reformas e subsídios de desemprego têm sofrido grandes cortes ou são taxadas impiedosamente. Muitos dos cortes são criteriosamente aplicados a salários ou pensões acima dos 1500 euros, como se esse montante permitisse uma vida de fausto. Os bens essenciais, como água, electricidade e gás, têm aumentado.
Gostaria de ver como reagiriam os cidadãos alemães se lhes fossem aplicados cortes semelhantes. Se de repente perdessem um quarto do seu poder de compra. Se não mais pudessem sair para beber grandes canecas de cerveja à sexta e sábado à noite, como é sua imagem de marca, ou em vez disso tivessem de se contentar com uma mini levada de casa.
E ainda fomos criticados quando, após a pseudo-saída da troika do nosso país, decidimos aumentar o salário mínimo para uns exorbitantes 500 euros mensais. Diga-me, Herr Kemper, o que faria o senhor e os seus compatriotas se vivessem com 500 euros por mês?
A agenda da Alemanha de Merkel não parece ser muito diferente da de Hitler. O objectivo é o mesmo: transformar a Europa , e quiçá mais até, num império alemão. A estratégia é que é diferente: a conquista será económica, através do empobrecimento dos outros estados, que assim ficarão eternamente dependentes e em dívida para com a grandiosa Alemanha. As batalhas não serão tão sangrentas, mas a destruição da vida das pessoas e da dignidade dos povos será a mesma. E o resto da Europa, cega e subserviente, cometeu o mesmo erro pela terceira vez: cheia de boa vontade e compaixão, ajudou a Alemanha a reerguer-se das cinzas das guerras mundiais que ela própria despoletou, para voltar a dominar tudo e todos. Passou um século, mudaram os nomes e as estratégias, mas a essência alemã é a mesma. E a Alemanha teima em esquecer-se das concessões de empréstimos a juros baixos e os perdões de dívida de que beneficiou e que agora nega aos seus credores, como a Grécia.
O que os portugueses querem – ou deviam reivindicar, mas o actual governo não tem coragem para isso – não é que a Alemanha lhes dê mais dinheiro. Isso seria agravar o grau de dependência de um país ao qual, já se viu, não convém dever favores. Os portugueses, os gregos, os espanhóis, os irlandeses, querem apenas deixar de ser asfixiados com as imposições de austeridade dos alemães. Querem poder exportar os seus produtos e ser pagos nas mesmas condições que são pagos os empresários alemães. Querem poder ter acesso a financiamento nas mesmas condições que são dadas aos alemães, cujos juros até são negativos. Enfim, querem ser iguais e merecer o mesmo respeito e ter a mesma dignidade. Pedir o que é justo não é pedir de mais.