Liberdade de expressão sempre! E responsabilidade?

A SMS de António Costa ao jornalista João Vieira Pereira do jornal ‘Expresso’ tem sido muito criticada, desde a esquerda à direita. E, claro, muito aproveitada pelo PSD, que ultimamente tem feito com frequência as vezes de principal partido da oposição (não se iludam, senhores sociais-democratas, nisso têm sido melhores do que o CDS de Paulo Portas).
Todas as opiniões, comentários e versões que têm vindo a público encarreiram pelo fácil caminho de atentado contra a liberdade de expressão, num exercício populista e desprovido de esforço crítico, ainda para mais tendo em conta os meses de Abril e Maio em que tudo isto se encena. A única publicação que se demarca deste facilitismo é a de Daniel Oliveira no ‘Expresso Diário’ de 12 de Maio de 2015.
A SMS de António Costa terá sido infeliz do ponto de vista político. Revela, tal como diz Daniel Oliveira, um carácter irascível, arrogante e com pouco jogo de cintura no que toca a lidar com a crítica, características estas que podem não ser desejáveis num político candidato a primeiro-ministro. Mas disso serão os eleitores juízes.
Porém, a liberdade de expressão implica que, se qualquer cidadão, seja jornalista ou comentador, pode expressar publicamente a sua opinião e criticar alguém, seja político ou outra figura pública, a pessoa alvo da crítica tem o direito de se defender e de discordar da mesma. Por aí passa o sentido e dever de responsabilidade das acções de cada um, que acarreta também que tenhamos de responder por elas se tal nos for pedido. Esse dever está certamente bem expresso no código deontológico dos jornalistas, mas infelizmente nos últimos tempos parece ser cada vez mais desrespeitado, surgindo notícias baseadas em “fontes anónimas” e no “diz-que-disse” não confirmado. Digo isto sem fazer qualquer paralelismo com o comentário de João Vieira Pereira sobre António Costa ou com qualquer outra notícia ou jornalista em particular. Julgo que o jornalismo e os jornalistas devem recuperar a sua deontologia, reafirmar a sua função de informar sobre factos e não rumores e assumir a responsabilidade das suas afirmações, deixando de lado a pressão das vendas e audiências e a competição desenfreada por ser o primeiro a chegar ou o que publica o maior escândalo.
Concordo que a liberdade de expressão não ficou em nada ameaçada pela SMS de António Costa. A SMS foi em si um exercício disso mesmo, de pura liberdade de expressão, e que deu origem a muitas mais liberdades de expressão. E tudo se vai continuar a dizer e a publicar sobre tudo, porque ninguém foi coagido, apenas relembrado que às vezes os outros podem discordar daquilo que dizemos e temos de ter a mente aberta para esse contraditório.
Gabo a liberdade de expressão de Daniel Oliveira. Mais do que isso, gabo sinceramente a sua coragem e verticalidade, ao divulgar uma opinião diferente do resto das massas (de políticos e comentadores, entenda-se), ainda para mais envolvendo a pessoa que lhe abriu as portas do jornal onde a publicou.