O desfile da Liberdade após 41 anos

Mais uma vez, foi 25 de Abril.
Mais uma vez, a Avenida, que é da Liberdade, encheu-se do seu nome, que a Revolução nos deu. Mais uma vez lá estive, porque não estive no dia primeiro, mas não esqueço que a esse dia devo o poder estar ali.
Desfilámos Avenida abaixo, cheios de vontade, de razão, de força, de opção. Desfilámos para mostrar que não esquecemos que houve um tempo em que nada era permitido: desfilar, gritar, opinar, reivindicar, votar, escolher. E sem isto, tão-pouco era permitido viver!
Marchámos unidos, todos diferentes, mas não indiferentes, transparecendo emoções nos rostos clarificados pelas lágrimas. Os então jovens, que recusam deixar esquecer, e os agora jovens, ansiando lutar por uma causa, tal como os seus pais já lutaram. E surpreende-me sempre o turbilhão de emoções que também a mim me assalta inesperadamente. 
Ao cabo de 41 anos, continua a fazer sentido estar lá? Continua a a valer a pena?
Claro que sim, agora mais do que nunca! Porque a Liberdade nunca está garantida, reconquista-se todos os dias em cada grito, em cada punho cerrado. É quando o povo adormece na vã certeza das coisas, que a Liberdade vai sendo roubada de mansinho, um bocadinho aqui mais um bocadinho ali e, quando de repente se apercebe, já é tarde demais. Já nada resta, e estamos amordaçados de novo.
É preciso continuar a cantar as canções do Zeca, a marchar ao lado da chaimite, a erguer o punho e a voz para mostrar que estamos vivos e conscientes do que fomos, do que somos e do que queremos ser. É preciso que todos os dias sejam 25 de Abril, não nos alhearmos do nosso país nem do mundo que nos rodeia, participarmos, ter uma palavra a dizer e sermos nós a escolher. Porque muitos sofreram e até perderam a vida para que nós hoje possamos votar, e abstermo-nos desse direito é desonrar os seus feitos e a sua memória.
Mais uma vez, foi 25 de Abril. Mais uma vez, estivemos lá. Mais uma vez, o dia da Liberdade, todos os dias.