Quando as redes sociais ofendem a justiça

Assistimos recentemente a uma novela na internet de muito baixa categoria, que ilustra o que as redes sociais têm de pior. Ressalvo aqui os aspectos positivos desses portais de convívio virtual, que, no meu entendimento de pessoa não info-excluída, são muito poucos ou quase nenhuns. Mas isso seria tema para outro artigo.
Continuando a nossa novela… Uns magistrados que investigam o processo Marquês, em que José Sócrates é arguido, escreveram posts no Facebook comentando a prisão do ex-primeiro-ministro. Absolutamente condenável, pois estas pessoas têm responsabilidades oficiais, além de estarem sujeitas a sigilo profissional, pelo que não podem emitir publicamente comentários críticos acerca de nenhum processo de justiça. Estes comentários são julgamentos públicos, e denotam bem que os investigadores em causa têm uma opinião formada sobre a culpabilidade do arguido, quando ainda a investigação está a decorrer. O que nos leva a pensar que muito provavelmente as investigações serão conduzidas num determinado sentido – aquele que está de acordo com a opinião dos magistrados. E leva-nos também a questionar em quantos processos isso já terá ocorrido e em quantos mais continuará está justiça viciada.
Igualmente condenáveis são as declarações da Procuradora-Geral da República (PGR), Joana Marques Vidal, que conseguiu encontrar motivos para defender os seus colegas. É inaceitável esta posição por parte de quem tutela o funcionamento da justiça portuguesa. Isto põe seriamente em causa os princípios básicos de imparcialidade e de presunção de inocência até prova em contrário.
E seguimos para o próximo capítulo desta novela. Sofia Fava, ex-esposa de José Sócrates, resolveu manifestar a sua revolta com os dois capítulos anteriores recorrendo ao enxovalho mesquinho da PGR. Mais uma vez, no Facebook, onde tudo se pode escrever e tudo se pode ler. Se razão tinha na sua indignação, perdeu-a num abrir e fechar de olhos (ou neste caso, num clique). E o argumento de que terá sido no calor do momento, sem pensar, não cola. Postar no Facebook não é o mesmo que falar, pois teclar, reler e fazer clique leva mais tempo do que sair da boca para fora.
Se quiséssemos explicar aos espectadores de que trata esta mini-novela, diríamos que versa a irresponsabilidade e a má-educação de instituições, dos seus chefes e de outros cidadãos. Um crítico de ficção televisiva diria que levanta a questão sobre o funcionamento da justiça portuguesa e a garantia de um justo tratamento aos seus cidadãos.