Nacionalidade a retalho

O editorial do Diário de Notícias de hoje, 22 de Junho de 2015, assinado por Joana Petiz, faz a exaltação da venda de Portugal à fatia a meio mundo estrangeiro. Desta forma, lê-se, conseguimos “sair do buraco”, evitar a falência de empresas e parar a enxurrada do desemprego e da perda de bens das famílias.
Tudo porque, segundo Joana Petiz, nestes últimos quatro anos, parece que o nosso país recebeu a benção de algumas mentes iluminadas, que souberam ler as oportunidades e perceber que ou se vendia tudo ou não nos restaria nada. Por isso, “criaram condições” para que chineses, franceses, angolanos, americanos e espanhóis entrassem aqui e viessem cá buscar a preço de saldo o que não se quis reabilitar. A lista é imensa. Pois é, e nela se percebe que pouco ou nada restou. Fala até em “desburocratização”. Onde? Peço desculpa, mas não a vi.
Talvez seja uma visão muito moderna, esta de alienar o pouco que de bom os portugueses conseguiram construir. Não foi tudo de uma vez. Pois não, caso contrário poder-se-ia dizer com propriedade que tinha sido um saque, que as empresas que entregámos são despojos de guerra e que Portugal perdeu a sua soberania, sendo um país ocupado por forças estrangeiras provenientes de todos os continentes. Porém, como o cidadão português foi vendo os acontecimentos a desenrolarem-se aos poucos, envoltos no ruído ensurdecedor de uma crise da dívida à escala mundial que não chegou a perceber de onde veio, e várias vezes esmagado por escândalos bancários e empresariais de corrupção e ganância dos seus gestores, esta feira do produto nacional até soou a salvação. 
Contudo, os nossos louváveis salvadores não passam de Judas em busca de protagonismo. Políticos e economistas querem ser reconhecidos como tendo tomado as decisões difíceis que ninguém queria tomar, num trabalho abnegado para arrumar a casa.
Mas difícil não é passar os problemas para as mãos de outros que não se importem de lhes dar a resolução que mais lhes convém, em troca de contrapartidas que pouco convêm ao país. Difícil é assumir os problemas e tentar resolvê-los definitivamente. Difícil teria sido mudar a gestão das empresas tornando-as competitivas, chamar gestores ruinosos às suas responsabilidades e punir os corrompidos e os que corromperam. Mas isso dá mais trabalho e demora mais tempo. E o governo só dispõe de quatro anos para mostrar o seu trabalho, e convém que chegue às urnas com uma aura de salvador. Custe o que custar – para os cidadãos, bem entendido. Mesmo que para isso tenha de se pôr de joelhos perante os economistas que nos destruíram, com a sua visão de pagar com o dinheiro que não se tem uma coisa que não existe ou não vale o que se pagou por ela.
Prefiro a minha visão de “velho do Restelo”. A economia dos dias de hoje não entende que há coisas que ultrapassam o dinheiro, ainda que este não tenha nacionalidade. Há sonhos, há identidades e há ideologias que definem cada povo, que não são quintais isolados e retrógrados. Foram construídos ao longo de séculos de História, muitas vezes à custa de sangrentas batalhas com perda de milhares de vidas. Coisas hoje tão terrenas como determinadas empresas acabam por ser pedras basilares em que assentam algumas fundações da soberania de um país. E isso não se pode banalizar, e muito menos alienar. Porque é quando nos esquecemos de quem somos e de onde vimos que se abre caminho ao extremismo, ao ostracismo e à perda de solidariedade, que tanto tem afetado ultimamente o mundo inteiro, e em particular a Europa. Não queiramos voltar a viver velhos tempos.