O sonho dos magistrados

A ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, e os sindicatos dos juízes e do Ministério Público (MP) zangaram-se. A coisa é de tal forma grave que até cortaram relações. Os sindicatos amuaram porque a ministra não aprovou reivindicações feitas no âmbito da negociação do novo estatuto dos juízes e procuradores.
Mas serão reivindicações ou assaltos aos bolsos dos portugueses? Serão novos estatutos de trabalhadores da Justiça ou uma tremenda injustiça para com os trabalhadores e contribuintes portugueses?
As propostas dos sindicatos incluem aumentos salariais de 17% para repor o poder de compra de 2000, a atualização do subsídio de condição de juiz de 620 para mil e poucos euros, a idade de reforma aos 60 anos, a possibilidade de faltar seis dias por ano sem justificação, a equiparação do subsídio de alimentação ao dos membros do governo e a progressão da carreira de acordo com o número de anos de profissão e classificação de mérito, independentemente de existir ou não vaga na hierarquia seguinte.
Com certeza os senhores juízes e os senhores procuradores do MP adormeceram em algum momento das suas digníssimas carreiras, e em sonhos foram transportados para um outro país, que só existe no inconsciente dos seus eminentes egos. Nesse país de sonho não há crise. Os seus habitantes não têm visto os seus salários reduzir progressivamente, mais até do que 17%, e o seu poder de compra ser comido por cortes de subsídios que não são da condição da profissão para a qual foram contratados, mas sim subsídios de sobrevivência. A idade da reforma nesse país de sonho não tem vindo a subir paulatinamente – de repente todos os cidadãos passaram até a reformar-se seis anos mais cedo. Os trabalhadores faltam quando lhes apetece e nem têm de dar qualquer justificação, nem sequer são despedidos ou alvo de processos disciplinares por muito menos. Nesse país idílico as progressões das carreiras são automáticas para todos, ninguém está décadas sempre no mesmo grau nem, noutros casos, tem de se submeter a complicadas e exigentes avaliações.
Em diversas ocasiões tenho estado em desacordo com a atuação da ministra Paula Teixeira da Cruz. E neste episódio é de criticar a descoordenação entre a ministra e dirigentes do Ministério, sobretudo o secretário de Estado António Costa Moura. O grupo de trabalho do Ministério deu por aprovado o que a ministra mais tarde veio chumbar, criando a habitual trapalhada a que o Ministério da Justiça, bem como muitos dos seus parceiros de governo, já nos habituou. Mas, neste caso, parece que Paula Teixeira da Cruz foi a única a não se deixar transportar para esse tal país construído em castelos de nuvem e a perceber que o que os juízes e procuradores exigem é uma afronta aos cidadãos portugueses. É apoucar os sacrifícios que lhes têm sido impostos. É gozar com a pobreza em que muitos hoje se encontram. 
Diria que os senhores magistrados se esqueceram que juraram defender uma justiça igual para todos. Como diria George Orwell, quererão talvez ser mais iguais do que os outros.