Basta de brincadeiras! Os adultos vão entrar na sala

A vitória do “não”
no referendo grego deste domingo foi retumbante. E surpreendente, confesso,
para mim tal como para muitos europeus, com uma vantagem sobre o “sim” que não
deixa margem para dúvidas. Novamente, as sondagens falharam em toda a linha.
Mais do que “não”
à última proposta dos credores, os gregos disseram não à humilhação. Recusaram
continuar a viver sob o chicote da escravatura, que lhes é imposta por uma política
económica esmagadora e infrutífera, regulada com mão de ferro pelos Mercados,
essa entidade que parece ter adquirido vida própria e adotado uma personalidade
abjeta. Rejeitaram uma Europa de desigualdades, que esqueceu os princípios da
sua fundação e se deixou corromper também ela por esses Mercados, e que na
partilha do bem comum guarda para si a melhor parte e espezinha os periféricos,
amarrando-os a uma dívida eterna e impagável. Mesmo na incerteza do futuro, sob
controlo de capitais e espreitando uma crise humanitária, o povo grego mais uma
vez escreveu nos livros de História que a sua dignidade vale mais do que euros,
dracmas ou qualquer outra moeda. E sabia muito bem o que estava em jogo neste
referendo, apesar da campanha dos media
alegando desinformação. Louvo-lhes a coragem, e agradeço-lhes, por darem à
União Europeia a lição de princípios que o governo português, e outros, não
souberam dar!
E agora? Tudo terá
de ser decidido nos próximos dias, com a espada do dia 20 de Julho sobre a
cabeça, dia em que a Grécia terá de pagar 3,9 mil milhões de euros ao BCE. Já
estamos para lá da 25ª, 26ª e demais horas: esta é a hora de os adultos entrarem
na sala e trabalharem efetivamente para chegar a um acordo, o que implica fazer
cedências. Está em jogo a sobrevivência do povo grego, para quem já começa a
ser difícil o acesso a bens essenciais. Tal como disse Juncker, o primeiro
passo cabe agora aos gregos, e Tsipras já começou por dar um sinal ao afastar o
seu ministro mais carismático e polémico, que saiu prontamente para dar espaço
às negociações, atuando como um político deve atuar: no melhor interesse do seu
país. Esperamos agora para ver o que as instituições têm para oferecer à Grécia,
na certeza porém de que as medidas propostas conterão uma inevitável e
necessária austeridade. Mas tem de ser uma austeridade comportável e que
permita à Grécia reerguer-se.
Alexis Tsipras
poderá ser inexperiente nos meandros da governação, mas é com certeza
surpreendente. Após largos meses de avanços e recuos, em que chegou a ter na
mão um pacote de medidas de uma austeridade muito para além do que se propunha inicialmente,
parte a corda de forma inesperada e tira da cartola este referendo. Louco e
insensato, disseram alguns. Um golpe de génio, dizem outros. Talvez um misto
dos dois. O referendo colocou um risco adicional aos gregos, atualmente sem
dinheiro no bolso e com os bancos descapitalizados. Mas desta forma, Tsipras
conseguiu várias coisas: partilhar a responsabilidade das decisões com o povo e
a oposição gregas e mostrar às instituições que se debatem não só com políticos
mas, acima de tudo, com a alma de um povo. E isso enfraquece os adversários. Depois,
não hesitou em sacrificar o seu número dois, Yanis Varoufakis, para mostrar
nova abertura e se manter em jogo. Seria tudo uma estratégia há muito delineada,
ou um caminho traçado atabalhoadamente ao sabor do vento? O tempo dirá que tipo
de político temos em Alexis Tsipras.
Nunca acreditei
que o referendo, qualquer que fosse o seu resultado, alterasse
significativamente o rumo das negociações. Ao contrário do que diz Tsipras, não
me parece que o primeiro-ministro grego chegue intocável a Bruxelas depois da
vitória do “não”, tal como as instituições não ficariam de repente imbuídas de
boa vontade caso tivesse vencido o “sim”. Nesse aspeto, subscrevo as
declarações dos vários dirigentes europeus: as negociações continuarão a ser
difíceis. Até porque as pressões internas são muitas, de ambos os lados, com os
gregos na expectativa de uma necessária resolução urgente desta crise e, por
outro lado, os vários membros do Eurogrupo pressionados pelos respetivos
eleitores para não abrirem mais uma vez os cordões à bolsa. Os nervos no
governo de Passos Coelho já devem estar ao rubro, antevendo as consequências
que um alívio das condições para a Grécia traria em plena pré-campanha
eleitoral, chumbando os “bons alunos” que embarcaram na cantiga da austeridade cega.
O referendo vale, sim, pelo ato político, pela mensagem que transmite, pela
vontade de quebrar as injustas imposições europeias. É um grito de
independência, de justiça e de igualdade que ecoa na Europa. Independentemente do
desfecho destas negociações, a Europa não mais será a mesma, porque houve
alguém que lhe fez frente. E o euro tem uma ferida aberta, que terá de ser
sarada redesenhando o sistema económico-financeiro da Zona Euro, e talvez até o
sistema político da União Europeia.