Refletir na abstenção

Hoje é dia de
reflexão. Por isso, não vou falar de partidos nem de políticas. Vou, sim, falar
de abstenção. Ou melhor, da falta dela.
Vamos fazer um
exercício de memória e recordar dois momentos históricos. Primeiras eleições livres
e democráticas em Portugal após a Revolução de Abril de 1974, que tiveram lugar
precisamente um ano depois, a 25 de Abril de 1975: abstenção 9% – muito aquém
dos mais de 50% das última década. E o referendo em Timor-Leste que expressou a
vontade de independência do jugo indonésio em 30 de Agosto de 1999: abstenção
inferior a 2%.
No primeiro momento,
muitos dos que hoje votam, como eu, ainda não existiam. Mas sabemos que, se
hoje podemos votar, foi porque houve quem lutasse contra a opressão de uma
ditadura de quase 50 anos, em que o cidadão comum não podia ter voz na vida
política do país. E, embora num território longínquo, muitos dos atuais
eleitores portugueses, como eu, viveram com paixão os tempos em que os
timorenses clamavam pela independência e pelo fim dos massacres indonésios. Moral
da História: quando as pessoas sentem que contam para fazer a diferença, a
afluência às urnas é extraordinariamente massiva.
Então, se cada
voto conta, porque tem sido a abstenção a grande vencedora da maior parte dos
sufrágios, quer em Portugal, quer na Europa?
Porque as
pessoas estão cansadas. Cansadas da falta de alternativa, da cedência aos lobbies, de regras ditadas de fora do
país. Cansadas de “politiquices” (que é muito diferente de política) – e aqui a
classe política em geral tem muita culpa, pois por vezes (mas com muitas
exceções) joga um jogo que deixa de fora a defesa dos interesses dos cidadãos e
do país.
Quer isto dizer
que é necessário sermos privados dos nossos direitos e liberdades para que as
pessoas tenham a iniciativa de ir votar?
Certamente que
ninguém o deseja. Mas é necessário perceber que a abstenção, o desinteresse, o
alheamento, são um convite à opressão e um abrir caminho a que decidam por nós.
É preciso ir votar. É preciso mostrar que estamos cá, que estamos atentos ao
que dizem e ao que fazem, que não estamos alheados e que queremos saber. É
preciso exercer o nosso direito de nos exprimirmos e de escolhermos quem
achamos que nos representa melhor. Mesmo que não se vote no partido vencedor,
então que se dê mais força a um outro que nos represente melhor. Quem não vota
não tem o direito de depois se vir queixar.