Cavaco Silva, o Velho do Restelo

Não há um só discurso de Cavaco Silva que não gere imediatamente polémica e mal-estar no seio da classe política e da sociedade portuguesas. E o discurso de indigitação de Pedro Passos Coelho como Primeiro-Ministro do passado dia 22 de Outubro não fugiu à regra.
Enquanto Presidente da República (PR), Cavaco nunca conseguiu pôr de lado a militância no PSD, nem em nome do “superior interesse nacional”, a que o próprio tanto gosta de aludir. Cavaco é, reconheça-se, muito centrado nos deveres institucionais. Nessa perspetiva, era mais do que previsível a indigitação de Pedro Passos Coelho, já vaticinada pela generalidade dos analistas políticos. Se o PR se tivesse justificado com o facto de a coligação PSD/CDS ter sido a força mais votada nas eleições, o que é incontornável, e mesmo com a consideração de que o acordo entre os partidos de esquerda não oferecia garantias de estar bem consolidado, pois pouco se conhece do resultado das negociações, a sua decisão seria mais bem acomodada. Mas o que lhe sobra em sentido de institucionalidade, falta-lhe em dever conciliador e de isenção. Por isso, Cavaco não podia resistir a lançar farpas na direção daqueles que não jogam na sua equipa e a sobrepor as suas convicções políticas às dos eleitores. E fez o que seria impensável em 41 anos de democracia: excluiu partidos do ato da governação, e com isso os eleitores que neles votaram, porque não vão de encontro à sua própria ideologia e porque podem assustar a Europa e os Mercados… Cavaco não é nem nunca foi de esquerda, todos o sabemos, mas não pode querer substituir 10 milhões de portugueses e escolher em vez deles. Já houve tempos em que era assim, mas acabaram em Abril de 1974. 
Já na comunicação de 22 de Julho de 2015, em que fixou a data das eleições legislativas, Cavaco Silva procurou condicionar os cidadãos à solução governativa que ele entendia ser a que melhor serve o país. A partir daí, ficou no ar a pressão para obter uma maioria absoluta, sob a ameaça de que não seria dada posse a um Governo minoritário. Apesar de em toda a vida da democracia portuguesa ter havido Governos minoritários, mais ou menos duradouros, sem que  ninguém se lembrasse de anunciar um cenário apocalítico. De tal forma que António Costa, mesmo não ganhando as eleições, arranjou maneira de apresentar ao PR uma solução governativa sustentada numa maioria parlamentar, que falta à coligação vencedora. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro Cavaco, que porventura achava que, aterrorizando os eleitores e os partidos, conseguiria levar a água ao seu moinho. Não só ficou o seu moinho inoperante, como conseguiu ser responsável pela crise política atual, que não é necessariamente negativa. O Professor logrou o que menos desejava: uma mudança histórica nas eleições e no parlamento português e a união da esquerda. Há muito que precisávamos de uma viragem assim. Obrigado, senhor Presidente!

Aníbal Cavaco Silva é um autêntico velho, e do Restelo, bem entendido. Para ele, a mudança, se for para o lado contrário ao seu, ou seja, à esquerda, é sinónimo de mau presságio e de catástrofe. E tudo faz para impedir os maus ventos da esquerda, mesmo que para isso tenha de desrespeitar os votos dos portugueses, os partidos e a Constituição. Escrevi aqui, no dia 28 de Setembro de 2015, que Cavaco iria provavelmente ter de engolir o sapo de indigitar um Governo minoritário. E agora, ou engole outro sapo e empossa um Governo de um partido derrotado, ainda por cima apoiado numa maioria de esquerda, ou faz prevalecer a sua teimosia e as suas convicções e mantém o atual Governo em gestão, que será fortemente contestado por falta de maioria e de legitimidade, com as consequências negativas que isso trará para o país, até que outro PR venha limpar a sua trapalhada. Realmente, é preciso cuidado com o que se diz, para depois não se ter de fazer o que não se quer.