Mudam-se os tempos

Desde há um mês que a política portuguesa fervilha, ganhando um ânimo que há muito não se lhe conhecia. Talvez tenhamos de recuar a 25 de Abril de 1974 e ao ano e meio que se lhe seguiu para encontrar um período digno de entusiasmar os portugueses. Só por isso, o momento atual já é excecional. Mas muito mais o torna verdadeiramente histórico.

Desde o 25 de Novembro de 1975, a divisão da esquerda galvanizou-se, sobretudo entre PS e PCP, fechando a porta a qualquer acordo ou entendimento. Muitos dos que hoje votam, como eu, não viveram o tempo do PREC nem a diabolização da esquerda e do comunismo. Por isso, torna-se difícil para nós ver esta cisão com os mesmos olhos. Há muito que uma parte dos portugueses anseia por um entendimento entre os partidos da esquerda. Chegou finalmente a hora?
A minha prudência já aqui defendeu, no dia 20 de Outubro, que se devia deixar PSD e CDS governar, pois que foram a força mais votada nas eleições, cabendo ao PS, Bloco de Esquerda e PCP entenderem-se na oposição e balizar as medidas que o Governo queira tomar. Desta forma, e se mostrassem ser uma alternativa sólida e credível, ganhariam capital para a seguir formar um Governo de esquerda incontestável. Assim, da forma como as coisas sucederam, torna-se difícil não dar uma certa razão a quem vê com desconfiança um acordo à esquerda. Até porque, admita-se, as negociações entre os quatro partidos têm sido pouco transparentes, pelo menos no que chega  ao conhecimento público.
Recuso que a democracia portuguesa seja refém da tradição, como muitos desejam. Tradição é uma palavra que não deve fazer parte do vocabulário da política, para que esta goze de saúde e continue a evoluir no sentido de encontrar soluções o mais justas possível para melhorar a vida dos cidadãos. António Costa, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins e, ultimamente, Heloísa Apolónia, foram os primeiros líderes ao cabo de 40 anos capazes de ouvir os portugueses e de reconhecer que a esquerda deve ser chamada a governar. Independentemente do desfecho, do acordo alcançado e da sua duração, o primeiro passo está dado e o mérito a eles pertence. Desde o primeiro momento em que deram sinais de abertura para o diálogo conjunto, acreditei que finalmente seria possível, apesar da campanha de perturbação encetada pela maioria dos meios de comunicação social e dos comentadores políticos, aventando medidas avulso que estavam ainda no segredo dos deuses, só para semear a discórdia e a incerteza. Claro que ninguém está à espera de que estes partidos abandonem as suas convicções básicas, nomeadamente em termos de moeda única, União Europeia e NATO. O que aconteceu foi que foram capazes de encontrar pontos comuns entre eles e com o PS que permitam abrir a porta da esquerda em Portugal. Por isso, nunca li nas reservas do Partido Comunista  uma dificuldade ao acordo. Só quem não entende a essência do PCP pode atribuir a sua prudência à contestação interna. Concerteza nem todos dentro do partido são a favor do apoio a um Governo do PS, mas a História diz-nos que o PC é consistente com as posições que toma.  E tal veio a verificar-se: o acordo foi aprovado pelo Comité Central por unanimidade. 
Rejeito o clima de medo que empresários, banqueiros, economistas,  jornalistas, comentadores e demais apocalíticos querem impor aos portugueses. O mundo não vai desabar com um Governo de esquerda. Nem tão-pouco se vão voltar a comer criancinhas. O país precisava de passar por uma viragem à esquerda. E a Europa mais ainda. A ver vamos se, depois da tentativa falhada da Grécia, serão os portugueses a mostrar aos seus congéneres europeus, e ao mundo, que há vida para além da ditadura da economia e dos Mercados.
Acredito que esteja em marcha a primeira revolução na democracia portuguesa desde o 25 de Novembro de 1975. A governação não tem, não deve, ser exclusiva do PSD, PS e CDS. O país precisa desta diversidade e alternativa. E também de tempos de mudança que nos despertem do sono de resignação a que começávamos a sucumbir.