Quanto tempo o Governo tem?

Perguntemos ao tempo quanto tempo o Governo tem? O tempo responderá “nem eu sei”. As condicionantes são múltiplas, externas e internas. Cá dentro, os acordos das esquerdas (ou falta deles), a austeridade (que não vai faltar), o novo Presidente da República (cuja moderação nunca fará tanta falta). Lá fora, o euro, o pacto orçamental, a Europa, o crescimento económico (ou a falta dele). E ainda o gigante chinês, que era de fora e passou a estar cá dentro. 
À esquerda, os trabalhos tiveram início em tom de aviso. A estreia começou imediatamente, na votação do programa do Governo, com Catarina Martins a encostar Mário Centeno à parede no caso do Novo Banco. Em sede de concertação social, discute-se não só o montante do salário mínimo, mas também a bandeira do PCP, que se quer içar mais alto acusando o BE de deixar cair a sua reivindicação dos 600 euros. Uma pedra que Jerónimo de Sousa resolveu deixar no caminho dos seus colegas, barra, adversários (parece que está na moda pontuar por extenso) de acordo parlamentar, pois estes correm céleres em popularidade e com risco de deixar os comunistas bem lá atrás. Tão em cima está a mó dos bloquistas que até reclamam um lugar no Conselho de Estado, mais uma vez obrigando os comunistas a correrem atrás para não perder um lugar no pódio. Uma disputa, aliás, de importância desprezável, esta do Conselho de Estado, onde Costa desperdiça o seu capital, pois o real papel deste órgão é muito menos relevante do que a honorabilidade que o título confere aos seus membros.
Costa está desde já avisado: Bloco e PCP apoiam a sua iniciativa de Governo, mas não incondicionalmente, e não abdicarão das lutas que os definem. O PS pode correr o risco de sucumbir às velhas intransigências dos partidos à sua esquerda, mas julgo ser maior ainda o risco de estes partidos perderem as suas bandeiras nestes acordos, e com isso o seu eleitorado. É, por isso, compreensível que PCP e BE vão fazendo alguns finca-pés e dessa forma dando mostras aos seus militantes de que não foram absorvidos pelos socialistas.
No campo da austeridade, tivemos esta semana a confirmação de que não é coisa do passado. Verdadeiramente, ninguém pensava que já lhe estivéssemos a preparar a despedida. E o Executivo socialista nunca o escondeu, afirmando sempre que as metas do défice eram para cumprir. Por isso, enviou à frente o sempre otimista Mário Centeno para preparar o terreno, anunciando medidas que muitos classificaram como austeridade, mas que na realidade não são mais do que aquilo que todos os governos fariam em final de ano civil, ainda sem orçamento para o ano seguinte e sob imposições restritivas vindas de Bruxelas. Esta pseudo-austeridade ficou para já por conta do governo anterior. Resta saber o que vem por aí. As notícias que vêm da Unidade Técnica de Apoio Orçamental não deixam adivinhar um legado muito vantajoso, prevendo um défice muito acima dos 3% e uma almofada afinal bem menos fofa do que Maria Luís Albuquerque prometera. E é a necessidade de uma austeridade mais profunda do que o Governo de António Costa propagandeou, quer seja por falha da sua própria estratégia económica, quer por inércia europeia, queda angolana ou fraude chinesa, que os portugueses, mais até do que os partidos da esquerda, não vão aceitar. Daí até ao partir da corda que amarra a frágil união das esquerdas será apenas um pequeno passo, encurtado pelo sentimento não desprezável de que este Governo emanou não dos votos, mas da reviravolta política.

Não obstante os riscos, as brechas e os potenciais pontos de quebra, a maioria dos quais não controláveis pelo Governo, há algo que não se pode subestimar: a capacidade de António Costa de negociar, de gerar entendimentos, de conciliar, enfim, de dar a volta ao jogo e fazer acontecer o impossível. Durante toda a vida, desde a adolescência nas Associações de Estudantes, passando pela autarquia lisboeta, essa foi a sua principal característica e o seu maior trunfo, unindo os para sempre apartados e desta forma garantindo vitórias (quase) impossíveis de alcançar. Por isso, este Governo terá o tempo que Costa souber usar. E Costa quererá todo o tempo. Porém, só o tempo dirá quanto tempo o Governo tem.