As presidenciais do vazio

Apesar de
estarmos a uma escassa semana das eleições presidenciais, tenho hesitado em
trazer o tema ao Espaço Liberdade. A verdade é que tenho dificuldade em
escrever sobre elas, pois que são as presidenciais mais desconcertantes e
confusas de que tenho memória – e já levo seis destes sufrágios e três
presidentes na bagagem.
As eleições
presidenciais de 2016 gozam de uma certa bizarria. Uma espécie de aura
nebulosa, que lhes confere um caráter de coisa indefinida e inexplicável, mas
que toda a gente percebe ser diferente de tudo o que já se viu até agora em
matéria de presidenciais.
A multiplicidade e a qualidade dos
candidatos.
Na verdade, são dois fatores aqui enumerados, mas que correm de
mãos dadas. Atingiu-se o número recorde de dez candidatos, ultrapassando os seis de 1980, 2006 e 2011. Dir-se-ia que a quantidade substituiu a qualidade. A
ausência de dois ou três candidatos suficientemente fortes para congregar as
preferências dos portugueses conduziu à proliferação de várias candidaturas,
que tentam preencher essa lacuna. Só que isso não é positivo; pelo contrário,
trata-se de uma certa degradação da política, que só pode degenerar em
desinteresse: pelas ideias, pelo debate, enfim, pelas eleições. Ninguém o
expressou melhor do que Vitorino Silva, o popular Tino de Rans, que admitiu que
não se teria candidatado se António Guterres estivesse na corrida.
Se, por um
lado, a diversidade e a cidadania são positivas numa democracia, por outro, abrem
caminho à emergência de personalidades que não oferecem o mínimo de condições
para ser Presidente da República (PR), mostrando até ignorar as funções institucionais. Resultado: uma confusão de candidatos. Um político-vedeta, que faz
da campanha um passeio e distribui beijos e abraços em vez de palavras de
ordem. Uma senhora das causas sociais que concorre para fazer pirraça ao líder
do seu partido. Um ex-reitor que não se sabe de onde vem e que parece apenas
deslumbrado com o mundo da política descoberto tardiamente; que goza de apoios
de peso e que enaltece a sua independência partidária, mas desejando
fervorosamente o apoio que o PS não lhe dá. Um homem bem conhecido das fileiras
socialistas, que parece militar no partido errado, e que faz campanha contra o
PS. Duas candidaturas emanadas de partidos, que existem para marcar terreno e cuja
mensagem já é à partida conhecida. Um empenhado agente anticorrupção que soa a
cassete. E, por fim, três candidaturas que ainda não disseram ao que vêm.
A dispersão da esquerda e a unidade da
direita.
A esquerda não foi capaz de lançar um candidato único. Ou, pelo
menos, um só candidato da área do PS, já que o PCP historicamente apresenta
sempre o seu próprio candidato. Guterres, O Desejado, negou-se, deixando um
vazio e uma dor de cabeça para António Costa, que geriu mal esta matéria, ao
hesitar apoiar Sampaio da Nóvoa, ou outro candidato que fosse mais consensual
dentro do partido. No conturbado clima que se instalou recentemente no Largo do
Rato, ficou espaço para se materializar a oposição interna, personificada por
Maria de Belém. Sem esquecer Henrique Neto, várias vezes dissidente, e que
portanto não surpreendeu. Nesta questão, o PS perdeu algum terreno enquanto
partido, sobretudo depois da muito pouco airosa justificação de que estas eleições
são as “primárias da esquerda”. Com a esquerda apinhada, qualquer
candidato que viesse da direita teria toda a vantagem se viesse sozinho.
Marcelo percebeu-o muito bem, e soube gerir com extraordinária habilidade o
momento de entrada na corrida e, acima de tudo, soube condicionar outros
putativos candidatos da sua área, ao ponto de os levar a desistir de correr.
O fator Marcelo. Marcelo Rebelo de
Sousa acompanhou os portugueses no jantar de domingo nos últimos dezasseis anos. É uma figura simpática, bem-falante, que tomou para si a altruísta missão
de semanalmente trocar por miúdos os intrincados meandros da política
portuguesa. Funcionou também como batedor do PSD, primeiro na oposição e depois
no governo, fazendo o pré-lançamento de medidas, disfarçado de futurologia, a
fim de avaliar o seu impacto na opinião pública antes de as concretizar. Pelo
meio, foi dando opiniões, e muitas vezes contradisse-se, fantasma que agora o
vai assombrando. Mas parece-me excessiva a acusação de que não se conhece o que
ele pensa: as posições que tem tomado e o seu passado em cargos políticos não
permitem estranheza a ninguém quando se antevê que tipo de PR será. Marcelo
usufruiu durante todos estes anos de um espaço privilegiado, em que se
popularizou isoladamente, sem ter de enfrentar o contraditório. Propositado ou
não, é uma vantagem.
Porém, a forma como gere este “auto-legado” tem custos
para a democracia e poderá vir a ter para si próprio também. Nesta campanha,
Marcelo anda com pezinhos de lã, tentando não acordar aqueles muitos que
embalou com a sua campanha televisiva. O que mata o debate de ideias e não
contribui para esclarecer o eleitorado. No entanto, percebeu, e bem, que com
Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, que são os únicos capazes de lhe morder os
calcanhares, tinha de dar prova de vida – e o que se viu foi um Marcelo Rebelo
de Sousa atacante e exasperado, com um pobre reportório de argumentos e
impreparado para reagir quando confrontado com posições que tomou no passado. É
mal-amado por Passos Coelho e Paulo Portas, que não o apoiaram mas recomendaram-no a contragosto, e mesmo essa recomendação Marcelo tenta
sacudir para o lado. Votou a direita ao desprezo por a considerar “no papo”, só
faz a corte à esquerda e envia promessas apaixonadas ao Governo – será que,
quando se revê no final de cada dia de campanha, percebe como soa a falso? Esta
tática de Marcelo traz sérios riscos de aumentar a abstenção, sobretudo no
eleitorado da direita, e desta forma deixar escapar uma vitória à primeira
volta.
As campanhas. Aqui inovou-se. Mas não
para melhor. Todos os dias, vemos os candidatos no café a beber a bica, a
trincar delicadamente uma bifana, a comprar medicamentos na farmácia, a visitar
os coitados dos doentes (que compõem sempre bem qualquer campanha). O que diz
isto do(a) nosso(a) próximo(a) PR – que também sabe comer com as mãos, que
sofre do estômago? Que as eleições são uma palhaçada? Onde estão os comícios,
em que se diz o que se pensa? Onde estão as arruadas, em que se ouvem as
pessoas? Perdoem-me, mas neste campo ainda sou à antiga.
Os debates. O elevado número e a
simultaneidade tornaram os debates cansativos e difíceis de seguir. Claro que
seria difícil fazer melhor, dada a abundância de candidatos. Louvo a iniciativa
dos media de dar a mesma oportunidade
a todos. Não partilho a ideia, defendida por muitos, de que devia haver
liberdade editorial: trata-se de eleições nacionais, o que obriga a igualdade
de tempo de antena. Já bastou o espaço dedicado a Marcelo Rebelo de Sousa desde
2000. Com poucas exceções, os debates foram um vazio de ideias: Marcelo
adormeceu-nos com a sua atitude complacente (exceto frente a Sampaio da Nóvoa e
Maria de Belém); Paulo Morais cansou-nos com a sua ladainha anticorrupção;
Cândido Ferreira, Jorge Sequeira e Vitorino Silva não conseguiram fazer
entender o que são; Henrique Neto foi quase sempre contra; Maria de Belém atacou
exasperadamente e exasperou-se quando atacada. Só se safaram Sampaio da Nóvoa e
Marisa Matias, que se mostraram bem preparados.
As eleições legislativas e o entendimento
das esquerdas.
Portugal vive ainda na esgotante ressaca do ineditismo do
Governo de António Costa, historicamente apoiado na maioria parlamentar de
esquerda. Ironicamente, quando o tempo era de legislativas, dominavam as
presidenciais. Agora, inverteram-se os tempos.
Cavaco Silva. O atual PR foi o
presidente mais impopular da história da democracia portuguesa, com índices de
popularidade – imagine-se – negativos. Cavaco Silva teve uma prestação de tal
forma medíocre que conseguiu esvaziar o interesse pela figura do PR. Todos os
candidatos pretendem ser a sua antítese. E os eleitores só desejam ver no
Palácio de Belém alguém melhor – o que baixa muito a fasquia destas eleições.
Se se puder
resumir estas presidenciais numa palavra, acho que essa palavra é “vazio”.
Vazio de ideias, vazio de disputa, vazio de interesse. Temo que a grande
vencedora destas eleições seja a abstenção, e com maioria absoluta. Já agora,
aproveito para lançar no vazio duas previsões, ao arrepio das sondagens:
acredito que haverá uma segunda volta, que será ganha por Marcelo Rebelo de
Sousa; e Marisa Matias poderá surpreender com um resultado acima dos 4-5%. Se
não acertar, já sei que o meu futuro não passará por seguir as pisadas do
candidato-comentador.