O furacão Schäuble e o referendo circense

O Reino Unido bateu com a porta.
O assunto continua a dominar a ordem do dia e, como não se adivinha uma saída
rápida, prevê-se que continue a encher parangonas por muitos e bons anos. Tão
insensata foi a aventura que agora está tudo zangado: britânicos com
britânicos, escoceses e irlandeses com ingleses, europeus com ingleses. Até o
sr. Juncker está zangado e abre a porta a convidar à saída. Os Mercados estão
alarmados. E o mundo está preocupado. No meio da desorientação que reina nesta
(des)União Europeia, não restou mais sapiência a não ser para duas ideias iluminadas:
a revisitação do fantasma das sanções e de um novo resgate para Portugal e um
referendo português à União.
O ministro das
Finanças alemão veio mais uma vez ameaçar com a necessidade de um novo programa
de ajustamento para Portugal. O problema é que, de cada vez que o furacão Schäuble
fala, tudo à sua volta se agita perigosamente. Quando tenta corrigir o passo em
falso e dá o dito por não dito já é tarde demais: os Mercados já tiveram um chilique
e os juros da dívida já dispararam. Curiosamente, ou nem por isso, tais
declarações foram proferidas numa altura em que a Alemanha é alertada pelo FMI para a crise demográfica e a consequente desaceleração do crescimento e é por isso instada a adotar as mesmas reformas que tanto gosta de impor aos chamados
países periféricos, mas que afinal também são dolorosas quando tocam ao povo germânico:
aumento da idade da reforma, mais mulheres a trabalhar a tempo inteiro, mais formação
para os migrantes.
Falta prudência
nas altas esferas do discurso europeu. Falta bom senso cada vez que se brande o
cartão amarelo das sanções a países que impõem uma austeridade férrea às suas
populações na vã tentativa de cumprir os tratados, que parecem inalcançáveis,
tal é a distância que os separa de uma realidade imperfeita que não previram. Nada
disto é compreensível quando se olha para os estados-membros que deixam
deliberadamente derrapar o seu défice, assumindo ter outras prioridades, como a
França. E muito menos se compreende quando 27 países se vergam a um só,
insatisfeito com o seu arrojado regime de exceção e que por isso resolve rasgar
todos os tratados que os outros são obrigados a cumprir. Nada disto contribui
para uma Europa mais unida e mais justa. Nada disto ajuda a reerguer uma União
esmagada pelo peso de décadas de más decisões, alargamentos pouco criteriosos e
de uma moeda única mal desenhada e sem mecanismos de escape. Uma Europa outrora
dos direitos humanos, que se foi desunindo com o tempo, e que hoje é incapaz de
uma resposta humanitária digna, abandonando ao terror da guerra milhares de refugiados.
Num momento em
que a Europa estremece sob o cutelo da desagregação, antevendo que o Brexit
tenha derrubado inexoravelmente as barreiras da timidez para outros países como
a Dinamarca, Holanda ou Hungria, eis que se agitam bandeirinhas na ponta mais
ocidental do velho continente. Só a longitude surpreende, mas não a mão que
empunha o estandarte do referendo. O Bloco de Esquerda resolve mais uma vez
chamar a si o protagonismo de agitar as águas europeias e nacionais. Mesmo
causando embaraço aos seus parceiros de geringonça. Não é novidade o
euroceticismo bloquista; todavia, e apesar da habitual propaganda, não me
parece que convenha ao Bloco estar isolado nesta matéria, sobretudo numa altura
em que os ânimos estão tão exaltados contra quem sai, chegando-se a colocar as
suas reais cabeças na guilhotina. Este é o momento em que é necessário acima de
tudo bom senso, mais do que posições partidárias efetivas ou puramente
circenses. A Europa encontra-se perdida na encruzilhada entre a desintegração e
os ódios que esta pode gerar e a junção de esforços para reabilitar o sonho europeu.
É indiscutível que o projeto europeu necessita de forma gritante de ser
repensado e profundamente ajustado, e os países devem trabalhar em conjunto para
o salvar. Pareceria uma atitude insana deixar morrer as bases da paz,
prosperidade e igualdade na Europa. Referendar a UE seria mais uma acha, desta
vez portuguesa, na fogueira da desintegração, que nem o país nem o mundo
compreenderiam.
O projeto
europeu necessita mais do que nunca de sensibilidade e bom senso. Não de
iniciativas infantis e discursos irresponsáveis. Não de atitudes revanchistas e
punidoras, mas também não de facilidades permissivas. Urge voltar às origens e
reabilitar os princípios fundadores. Ou então, assumimos que falhámos e só nos
resta recuar 60 anos e esperar que a História não nos castigue. Mais uma vez.