Quanto custará a Turquia ao mundo?

O mundo
adormecia, há pouco mais de uma semana, com a notícia de uma tentativa de golpe
de estado na Turquia. Nove dias depois, pouco se sabe sobre a origem de tal
empreendimento. O que é estranho, numa época em que tudo se acompanha em direto
e em que se sabe dos acontecimentos quase ainda antes de acontecerem. Quem
foram os verdadeiros autores? Quem planeou? Qual o papel do governo de Erdogan
em tudo isto? Porém, os efeitos são muito mais visíveis: 60 000 pessoas
detidas, entre as quais 15 000 trabalhadores da Educação, 9 000 funcionários
do Ministério do Interior, 3 000 militares, mais de 100 generais e
almirantes, 2 juízes do Tribunal Constitucional. Ao ritmo a que tudo isto se
sucede, não me preocupa tanto quem fez ou quem encenou – o tempo e a História
encarregar-se-ão de trazer à tona a verdade. O que o mundo quer saber é o que é
que a Turquia realmente deseja. E o que é que os seus desejos custarão ao
mundo.
A deficiente
organização da tentativa de golpe de Estado militar, traduzida aliás na sua
rápida contenção e total falhanço, tem suscitado a hipótese de se tratar de uma
encenação montada pelo próprio governo de Erdogan a fim de reforçar o seu
poder. Os contornos são de facto atípicos, sobretudo num país em que as forças
armadas têm tradição de quase um século de autoria de golpes de Estado e de
mudanças de regime. Com ou sem dedo de Erdogan, a verdade é que veio mesmo a
calhar para o próprio. Numa reviravolta, a presa tornou-se no caçador. E tem
agora o pretexto (suficiente, numa ideologia de consumo interno) para fazer uma
limpeza sem precedentes à sua casa e eliminar aquelas sujidades (leia-se
opositores) que teimam em não sair apesar de vigorosas esfregas com os
detergentes mais cáusticos. Sob uma propaganda – que me atrevo a comparar à
utilizada por Hitler para engrossar o seu exército de seguidores – cujo slogan é defender a democracia, milhares
de cidadãos turcos demonstram diariamente apoio incondicional ao seu líder.
Contudo, saneamentos e detenções em massa e desenterrar a pena de morte para
castigar os opositores dificilmente pode ser entendido como democrático.
Desde há muito
que Recep Tayyip Erdogan se esforça por reforçar o seu poder na Turquia. Apesar
de ser considerado um moderado, tem aprofundado o extremismo no país,
promovendo a islamização do Estado, limitando os direitos da mulher e
perseguindo os curdos (só para citar alguns exemplos). O grande revés no
percurso do presidente turco foi o seu partido, AKP, ter deixado fugir a
maioria absoluta nas eleições de 2015, impossibilitando assim uma revisão
constitucional que reforçaria os poderes do presidente. Tendo falhado essa
oportunidade, Erdogan encontra agora uma segunda hipótese (fabricada ou
aproveitada) de o conseguir. E assim a Turquia caminha perigosamente em direção
ao totalitarismo e ao regime de um homem só.
Porém, o regime
não será de um país só. A posição geopolítica da Turquia faz com que sempre que
lá se espirra todo o mundo se constipe. A Turquia é membro da NATO, alberga
algumas das bases militares internacionais de maior importância estratégica e é
dotada ela própria de razoável poder militar. É um país de charneira entre os
Estados Unidos da América e a Europa por um lado e a Rússia por outro. É a
fronteira entre o Ocidente e o Islão. Tem um papel privilegiado, embora
duvidoso e questionavelmente duplo, no combate ao Daesh. E atualmente foi
promovida a tampão da Europa para a crise dos refugiados. Reconhecendo esta
enorme importância estratégica, a União Europeia tem acenado com o isco da
integração, embora mais pareça ir apenas entretendo e empurrando com a barriga do
que querer realmente ter a Turquia na sua lista de membros de clube. Ninguém,
nem de um lado nem do outro, quer arriscar perder um aliado assim. Porque
ninguém quer enfrentar as consequências do confronto, quer seja político ou
bélico, de uma forte aliança de países, de um lado ou do outro, que se formaria
em torno da Turquia. E isto poderia motivar o estalar de uma guerra à escala
mundial (mais uma), com maior facilidade do que o assassinato do arquiduque
Franz Ferdinand do Império Austro-Húngaro espoletou a I Grande Guerra.
Erdogan sabe que
goza atualmente de uma oportunidade única. É hábil na mobilização do povo e
conta com o apoio, e mesmo com uma espécie de idolatria, de uma parte
significativa dos turcos, graças ao desenvolvimento económico que conseguiu
imprimir ao país desde que está à frente do destino da Turquia, primeiro como
primeiro-ministro em 2003 e depois como presidente desde 2014. Os que não são
tradicionalmente seus apoiantes, acederam ao apelo de travar esta revolta
porque sabem por experiência própria que um regime militar é pior do que a
espécie de democracia que ainda têm. E Erdogan tem consciência da importância
vital da Turquia para o mundo. Sabendo que os dados estão lançados a seu favor,
ele gere esta crise com a displicência que tem demonstrado pela opinião dos
líderes internacionais, atrevendo-se até a acenar com o fantasma da pena de
morte – que muito provavelmente vai mesmo reintroduzir – e a pressionar as
autoridades norte-americanas para entregarem o opositor exilado nos EUA,
Fethullah Gülen. Erdogan sabe que as perseguições e os atos de repressão que
tem levado a cabo após a tentativa de golpe de Estado de 15 de Julho nunca
serão aceites pela UE e que a integração está irremediavelmente comprometida.
Mas penso que o presidente não está muito interessado em pertencer à União (tal
como a UE também não estava muito interessada em recebê-lo), sobretudo quando
tem a oportunidade de liderar sem oposição um país que coloca o mundo a seus
pés. Que o mundo não se deixe enganar: não é a democracia que está a ganhar na
Turquia, é a falta dela.
Neste cenário,
qual será o futuro dos refugiados que se encontram na Turquia? Para já, só se
pode dizer que é incerto. Mas as perspetivas não são animadoras. Os turcos não
adoram a ideia de acolher refugiados legalmente – já se for para encher os
bolsos aos traficantes, não faz mal. Há relatos de maus tratos e tiros contra
refugiados em solo turco. Se Erdogan isolar (ainda mais) o país do escrutínio
internacional, os refugiados ficarão completamente entregues à sua sorte. E se
até aqui a Turquia dificilmente poderia ser considerada um país seguro, nessas
circunstâncias não poderá ser de todo. A UE não deve, não pode, manter um
acordo com estas condições, que atenta contra a vida de milhares de pessoas.
Na noite de 15
de Julho, apenas um dia após o terrível atentado de Nice, quando surgiram as
primeiras notícias sobre a tentativa de golpe de Estado na Turquia, em que
ainda nada se sabia sobre o desfecho que iria ter, pensei que os tempos que correm
são verdadeiramente históricos. Muito mais vezes pelos motivos errados do que
pelos certos. E que a História se faz a um ritmo alucinante e a uma escala cada
vez mais global. No entanto, quem conhece a História sabe que o passado, o
presente e o futuro estão muito mais próximos do que os anos, décadas ou
séculos que os separam. Julgo que não teremos de esperar mais do que uns dez
anos para que muitos dos apoiantes de Erdogan que hoje agitam a bandeira na
Praça Taksim sejam os próximos refugiados da Europa.