Só agora, Chilcot? E agora?

O relatório Chilcot, que analisa a participação britânica na invasão do Iraque em 2003,
está a ser recebido como se de uma bomba se tratasse. O governo de Tony Blair,
bem como o de George W. Bush, saem completamente arrasados desta fotografia. Esperou-se
sete anos por algo que podia e devia ter sido percebido logo na altura. E foi,
mas a sanha de invadir de meia dúzia de pessoas derrotou o bom senso e a
vontade do mundo inteiro. É caso para dizer: só agora? E logo a seguir acrescentar:
e agora?
A John Chilcot,
um alto funcionário público reformado britânico, que até é Sir, Gordon Brown, o primeiro-ministro que sucedeu a Tony Blair,
encomendou este estudo sobre a participação britânica na invasão do Iraque. O
senhor ouviu centenas de testemunhas e leu incontáveis documentos. O relatório
demorou sete anos. Os contribuintes britânicos ficaram aliviados em 10 milhões
de libras, mas com certeza mais ricos com a verdade. Conclusão? A guerra do
Iraque foi precipitada. Havia outras soluções possíveis, pacíficas, mas
optou-se pelo recurso às armas. A evidência de que Saddam Hussein escondia
armas de destruição maciça não era afinal assim tão evidente. Suspeito mesmo de
que tal evidência não existisse e tenha sido fabricada por ordem da
administração Bush.
Não quero
retirar mérito ao relatório, mas a verdade é que não trouxe nada de novo. O
mundo sabia que a invasão do Iraque era um erro e expressou-o de forma clara na
altura através de dezenas de grandes manifestações. Os próprios promotores da
ofensiva sabiam que esta era infundada, porque as provas da existência de armas
de destruição maciça simplesmente não existiam, como reiterou Hans Blix, chefe
da comissão de inspeção. O Iraque foi invadido porque o sr. Bush quis. Porque
precisava de sair por cima politicamente após os ataques do 11 de Setembro, que
feriram os EUA no âmago do seu orgulho nacional e puseram o gigante intocável
completamente de rastos. Porque a sua administração permitiu que o seu povo
fosse atacado de dentro e utilizando os seus próprios recursos. Porque a
popularidade do presidente se dissolvia no pó das Torres Gémeas.
Os homens do
presidente, Tony Blair e José Maria Aznar, vislumbraram no Iraque uma oportunidade.
Ou várias numa só. Seriam os únicos bastiões europeus da justiça mundial e do
combate ao terrorismo. E com certeza Bush não se esqueceria dos seus homens na
hora de angariar os contratos de reconstrução do país e de distribuir o espólio
petrolífero. Enquanto o resto da Europa se retraía no cais, estes dois vassalos
não perderiam o barco da vanguarda. A ONU deu a sua bênção à invasão, o que não
surpreendeu, visto que está transformada, cada vez mais, em Nações dos Estados
Unidos da América.
Os portugueses
assistiram há 13 anos atrás à famosa cimeira das Lajes, onde os três líderes da
coligação assumiram perante o mundo a sua iniciativa. Durão Barroso foi o
anfitrião, que posava de peito inchado perante as câmaras ao lado dos seus
(quase) iguais. Mas estava sozinho: os portugueses não o acompanharam nesta
receção, e muitas foram as críticas à posição do então primeiro-ministro
português. Lembro-me do que senti na altura: vergonha. Vergonha por ver o meu
país associado a um ato hediondo e ilegítimo, cujas consequências ainda estão
por resolver. Quatro dias depois, a coligação irrompia de sopetão no Iraque e
dizimava o regime de Saddam. Recusei sempre chamar a coligação EUA – Reino Unido
– Espanha de aliados. Os Aliados, que combateram e libertaram o mundo da fúria
opressora e imperialista de Hitler, não podem ser confundidos com os países que
desejam invadir e oprimir.
A ação da
coligação permitiu derrubar o regime de Saddam Hussein – uma ditadura, é
verdade, mas o que existe hoje no seu lugar? O regime iraquiano atual chama-se
caos. O país ficou desgovernado, ingovernável. Hoje o que existe no Iraque, e
que alastrou aos países vizinhos, é terrorismo e milhões de deslocados. O histórico
fosso entre xiitas e sunitas escavou-se ainda mais. E nasceu o Daesh, que não
ameaça só o Iraque, mas o mundo inteiro. É caso para dizer que o feitiço se
virou contra o feiticeiro. Não sei se Bush, Blair, Aznar ou Barroso têm por
hábito ler livros de História ou se simplesmente não aprendem com eles: sempre
que uma força exterior tenta mudar o rumo de um país, não dá bom resultado. Já
deviam saber a lição, depois de terem apoiado Saddam na guerra Irão-Iraque,
depois de terem visto surgir a Al Qaeda das cinzas da guerra do Golfo e os
talibãs na sequência da guerra contra a Rússia no Afeganistão. É óbvio que os
regimes totalitários e opressores devem ser derrubados – mas tem de ser pelo
próprio povo, quando este quiser e estiver preparado para tal; não por países
interesseiros com falso ímpeto justiceiro. Porque nestes casos o resultado é
sempre o mesmo: o poder cai na rua e o povo cai na desgraça.
No conflito do
Iraque, perderam a vida 150 mil iraquianos. Muitos dos problemas que o mundo
hoje enfrenta, e para os quais não se afigura uma solução fácil, não são
alheios a essa guerra: a crise dos refugiados, os conflitos e instabilidade nos
países árabes, os ataques terroristas no Médio Oriente, o Daesh. O mundo
inteiro continua a sofrer pela decisão leviana, assente na mentira e no
populismo, de quatro pessoas: George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e
Durão Barroso. A invasão do Iraque foi um ato de extrema gravidade e os seus
responsáveis não podem ficar impunes.
Nenhuma guerra é
justificável. Mas a guerra do Iraque em 2003 foi o conflito mais infundado dos
últimos séculos. Vidas que se perderam e vidas que continuam em suspenso, tentando
fugir desesperadamente do presente mas sem vislumbrar um futuro. O mérito do relatório
Chilcot não é as suas conclusões. É oficializar e fundamentar o que já toda a
gente sabia. O trabalho de sete anos não deve – 
não pode – cair em saco roto. O mundo pede responsabilidades e mais vale
ser tarde do que nunca.