O sótão da Presidência cheira a bafio

O caso das alegadas escutas em Belém nunca foi cabalmente esclarecido. O que sempre me intrigou e revoltou, pois é incompreensível que um assunto de tamanha gravidade passe sem escrutínio entre os pingos da chuva. Esta semana, um dos seus protagonistas, Fernando Lima, ex-assessor do ex-Presidente da República (PR) Cavaco Silva, presenteou a sociedade portuguesa com uma vasta obra em que revisita o tema que marcou a silly season dos idos de 2009, precisamente no rescaldo da atual silly season. Lima brinda-nos assim com um tratado esquizofrénico sobre a teoria da conspiração mais enleada, estapafúrdia e inédita da política portuguesa.
Em 430 páginas, Fernando Lima, jornalista, que já foi diretor do Diário de Notícias (DN) durante 1 ano (sob protesto da redação, o que levou à sua saída em Outubro de 2004), sacudiu a poeira que cobriu o sótão da Presidência – para onde o próprio diz ter sido remetido nos seus últimos seis anos de assessoria de Cavaco Silva, em jeito de castigo. A escuridão e o bafio do improvável gabinete foram com certeza os ingredientes-chave que permitiram ao ex-assessor para a Comunicação Social de Cavaco urdir esta mirabolante tese. Fernando Lima constrói um enredo de espionagem ao mais alto nível, idealizando o ex-PR Cavaco Silva e ele próprio como peças a derrubar pela máquina socialista manobrada pela mão opressora de José Sócrates, num verdadeiro rasgo delirante com traços psicóticos de endeusamento do PR e de mania da perseguição. Lima afirma que Cavaco seria um obstáculo a abater na “liça política” devido às dificuldades que poderia criar ao governo PS e assume-se a si próprio como um alvo central: “A diabolização da minha pessoa fazia parte da estratégia socrática”. E vai mais longe nos atributos ao ex-Primeiro ministro (PM), acusando-o de querer controlar os meios de comunicação e não só: “Paulatinamente, foi-se criando um autoritarismo oculto que exercia o seu controlo sobre o Estado, a finança, o setor judiciário e as informações”.
O que espanta, porém, não são os devaneios delirantes de Fernando Lima, dos quais já prováramos quando a polémica estalou em 2009. O que ainda surpreende e choca é que suspeitas de vigilância entre a Presidência da República e o Governo continuem a ser livremente faladas e desenvolvidas publicamente sem que nada seja investigado ou esclarecido. Recorde-se que a notícia foi avançada pelo jornal Público a 18 de Agosto de 2009, em clima de pré-eleições (que viriam a ditar o segundo mandato de José Sócrates) e depois de o PS se ter queixado de que assessores do PR estavam a colaborar na elaboração do programa eleitoral do PSD. O alegado espião em Belém seria um ex-adjunto de Sócrates, Rui Paulo Figueiredo, que teria integrado à última hora a comitiva presidencial numa visita à Madeira em Abril de 2008, segundo Fernando Lima com a finalidade de “observar, o mais dentro possível, os passos da visita do Presidente e o modo de funcionamento interno do staff presidencial”. Cerca de um mês depois, o DN divulgou uma troca de e-mails entre jornalistas do Público, que davam conta que o caso teria sido denunciado ao jornal pelo próprio Fernando Lima, após um encontro entre este e o jornalista Luciano Alvarez. Nesses e-mails, estaria até patente a alegada manipulação da fonte da história: “a eles também interessa que isto comece na Madeira para não parecer que foi Belém que passou esta informação”.
Mais tarde, em Janeiro de 2010, o assessor de Cavaco, já eclipsado no sótão de Belém, veio contar “a sua verdade” num artigo que escreveu no Expresso, em que apelida o caso de “delírio” “sem qualquer suporte factual”, culpa o Público por ter “transformado uma resposta irada (…) em suspeitas gravíssimas” e acusa o DN de ter publicado e-mails “sem correspondência com a realidade”, algo que considera merecedor de “rejeição enojada por parte de todos os profissionais de jornalismo e atores políticos”. Ora Lima, que porventura não releu o que escreveu em 2010, veio agora desmentir-se, afirmando que “Quando dei conta a um jornalista do Público (…) foi porque recebi uma indicação superior para o fazer”. Fica assim confirmado pelo próprio que foi ele quem fez a denúncia ao Público. E com o aval de Cavaco Silva.
Sete anos contados, nada resultou em nada. Está por saber como o DN teve acesso aos e-mails dos jornalistas do Público. Continua por esclarecer quem, em última análise, encomendou o caso. Continuam responsabilidades por assumir, pelo menos políticas. E é aqui que reside o nó principal desta trama: se o mote partiu de Cavaco, ou mesmo que este tenha tido apenas conhecimento, tudo se torna demasiado grave. E a parca ação do ex-PR durante a polémica não deixa de alimentar desconfianças. As declarações de Cavaco só surgiram mais de um mês depois (dois dias após as eleições legislativas), acusando o partido do Governo de “manipulação” e de quererem “puxar o Presidente para a luta político-partidária, encostando-o ao PSD” – estrategicamente sem nunca mencionar a palavra escutas. Ora se Cavaco Silva considerou que “foram ultrapassados os limites do tolerável e da decência”, porque não remeteu o caso para as instâncias judiciais competentes e o deixou cair no esquecimento? Por outro lado, porque não o fez o PS e o Governo de Sócrates, se o que estava em causa era o potencial grave papel da Presidência, e não apenas “disparates de Verão”?
Resta-nos a obra-prima de Fernando Lima, nascida da “sombra da Presidência” e envolta na névoa do sótão, onde o autor lamenta a desconsideração a que foi votado por aquele que serviu durante vinte anos, primeiro como PM e depois como PR. Foi do sótão que “assistiu com grande frustração” à perda de força de Cavaco Silva, a um Presidente cada vais mais “fechado no seu reduto”, à “desvalorização do poder de influência” do PR. Arrisca até acreditar que fez falta ao Presidente. No seu delírio atormentado de detentor da verdade desprezado, chega a lamentar que Aníbal e Maria, durante um almoço do 10 de Junho, “fizeram de conta” que não o viram numa ocasião em que “Sócrates estava por perto”. Seria hilariante se não fosse demasiado paranóico e demasiado grave para a política portuguesa.