Teve golpe, querida

Uma Presidente
eleita democraticamente deposta por políticos. Condenação sem provas
demonstradas. Um julgamento que não foi nos tribunais. Tudo mergulhado num
caldo de corrupção já inquinado e que cheira a podre. Já todos assistimos a
isto vezes sem conta na História mundial. Por isso, não se diga que não foi
golpe.
Dilma Rousseff
nunca me encheu as medidas. A discípula de Lula da Silva não absorveu o carisma
e a forma de comunicar com o povo que tem o seu mestre. Não soube
desembaraçar-se dos jogos de poder da política brasileira, por inépcia ou por
necessidade, aliando-se a quem viria a puxar-lhe o tapete. O Partido dos
Trabalhadores (PT) subiu ao poder com aura de salvador. E foi verdadeiramente
messiânico para os 40 milhões de brasileiros que resgatou à miséria, graças ao
jogo de cintura de Lula com o grande capital. Mas quando a expectativa é muita,
a deceção é ainda maior. Ficaram por fazer as reformas estruturais. A classe
média esperou e desesperou por melhores condições de vida e mais direitos, como
mais transportes públicos e melhores escolas. E isso, aliado à crise do
petróleo que tantos gigantes tem feito tombar, acendeu o rastilho do desencanto
e dividiu o país.
Mas não foi o
povo que fez cair Dilma. E é aqui que reside o problema. Dilma foi afastada
pela corrupção – não a sua, porque não era essa a acusação, mas a de grande
parte dos deputados, ministros, senadores e demais políticos e empresários, que
se viam a braços com processos judiciais, como o Lava Jato, ameaçando derrubá-los
da cadeira do poder. Prevaleceu a lei da sobrevivência: antes usurpar do que
ser usurpado. Há que garantir privilégios e rendas eternas. Há que assegurar
que o país continua desigual e que o dinheiro fica nos mesmos de sempre e não é
esbanjado nos pobres.
O processo de
destituição de Dilma Rousseff foi uma vergonha do princípio ao fim. Um processo
viciado, cujo desfecho estava anunciado desde o início. Dilma nunca teve defesa
possível, porque o seu destino estava traçado à partida. Quando os argumentos
são os pais, os filhos e os netos (os que existem e os que hão-de vir), Deus, a
família quadrangular evangélica e Santa Catarina, percebe-se que a acusação não
passa de uma farsa. O circo que foi todo este processo, desde a votação na
Câmara dos Deputados até à machadada final no Senado, adornada com lágrimas,
confetti e cuspidelas, envergonha esta nação, que tinha tudo para ser uma
grande potência, mas que se afunda na sua grandiosidade. O Brasil foi mais uma
vez vítima de si próprio e de um sistema que escancara as portas à corrupção e
à injustiça social. Um país que permite que uma Presidente seja julgada e
destituída com base em votos de opinião de políticos não é democrático. Um país
onde se mistura poder político e judicial e onde um juiz torna públicas escutas
que envolvem a Presidente não é um Estado de direito. Se um Presidente comete
erros na sua governação, deve ser afastado pelo povo, através de eleições. É a
democracia, estúpido! Qualquer outra forma de destituição é um golpe de Estado.
Ou não é este o nome que se dá a afastar um chefe de Estado e substitui-lo por
outro que não foi a votos?
Aquilo a que se
assistiu no Brasil nos últimos meses é digno de países do terceiro mundo e do
século passado. A uma nação não basta parecer grande. É preciso sê-lo. O Brasil
voltou a ser o eterno país do futuro, depois de quase ter lá chegado. Mas o
futuro dos brasileiros não se adivinha promissor.
O Brasil é
atualmente um país dividido. É quase possível traçar uma fronteira vertical de
norte a sul. Há os pobres e os ricos. Há os de esquerda e os de direita. Há os
socialistas e os capitalistas. Há os que defendem a igualdade e os que procuram
o privilégio. O governo de Temer será conservador, envelhecido, misógino,
homofóbico e racista. E alberga o maior cardápio de corruptos que se possa imaginar.
Michel Temer é conhecido pela ambição de poder e pela maquinação. Os pobres, as
minorias étnicas, os homossexuais e as mulheres serão relegados para o sopé do
Planalto. Mas nada disto se vai fazer sem contestação. Já teve golpe. Vai ter
protestos. Vai ter cisão. Vai ter confronto civil. Vai ter violenta repressão. O
Brasil já assistiu a esta novela. E parece estar condenado a uma reposição.