A hora de Merkel

Mais um
ataque terrorista na Europa. Mais um ato hediondo e indiscriminado, que atinge
os europeus no âmago das suas capitais, do seu modo de vida, da sua liberdade.
Depois de Paris, Bruxelas, Londres e Madrid, Berlim esquivava-se
surpreendentemente à sua hora. Mas a hora chegou. A hora errada e o local errado
no fatídico mercado de Natal em Berlim. E também a hora de Merkel, entre um
passo à frente e um passo atrás, entre a queda e a afirmação.
O atentado
no mercado de Natal em Berlim da passada segunda-feira dia 19 de Dezembro está
carregado de simbolismo. Em todos os aspetos. Primeiro, porque o Natal é, em
última análise, uma festa cristã, não obstante a vivência desta quadra se ter
alterado ao longo dos tempos e ser em muitos casos vivido fora da esfera
religiosa. Segundo, porque um mercado de Natal é algo muito ocidental, não só
pelo espírito consumista, mas também pela manifestação de liberdade inerente a
comparecer num local para exercer um ato de livre arbítrio e de lazer. Terceiro,
porque irromper com um camião a alta velocidade por um aglomerado de cidadãos
comuns aumenta o potencial de terror – esta é a aposta dos jihadistas, demonstrando
que não basta controlar a pente fino bombas e aviões; é possível atacar quando
e onde menos se espera e de uma forma que as nossas sociedades não conseguem evitar.
Quarto, porque há toda uma política alemã e europeia relativa à questão dos
refugiados e do Médio Oriente que os terroristas – seja Daesh ou outros –
querem condicionar.
Este último
ponto é particularmente relevante na conjuntura atual. Angela Merkel tem sido
muito criticada internamente pela sua política de receção de refugiados, o que
lhe tem custado votos em eleições regionais e ameaça a sua reeleição para a
chancelaria do país. Há um interesse claro do Daesh em tornar hostil a receção
dos refugiados na Europa e desta forma fomentar o ódio e a xenofobia entre as
duas culturas. O maior revés para os intentos jihadistas seria a integração e o
convívio salutar entre muçulmanos e ocidentais, com a possível ocidentalização
dos costumes, crenças e liberdades dos primeiros. Incentivar a radicalização e
a polarização alimenta também a guerra na Síria e noutros países do Médio
Oriente e contribui para a mistificação de um califado ou mesmo de um império
islâmico. Tendo em conta as derrotas e o enfraquecimento de que tem sido alvo,
sobretudo no reduto de Mossul, um ataque a uma capital europeia de relevo era
uma prova de vida que o Daesh tinha de dar. Sobretudo num país como a Alemanha,
conhecido pelo seu rigor, eficácia e intocabilidade. E não é de excluir que
outros pequenos atentados do género se multipliquem pela Europa nesta e noutras
épocas de grande significado para o modo de vida ocidental.
Por outro
lado, os jihadistas visam também clivar a própria sociedade ocidental, dividida
entre o medo e a necessidade de medidas securitárias e restrição de liberdades por
um lado e o sentimento de resistir e de se arrastar na luta pela sobrevivência
e pela manutenção dos seus valores e liberdades individuais por outro. Esta
cisão abre caminho ao avanço da extrema-direita na Europa, que trará o
isolacionismo e um novo voltar de costas entre o mundo árabe e o mundo
ocidental. E significará o desmoronar do sonho europeu.
O mundo tem
os olhos postos em Angela Merkel. As conclusões da investigação ao ataque e a
forma como a chanceler alemã reagir serão decisivas para o seu futuro e para o
rumo da política na Alemanha, com todas as consequências que isso poderá ter na
Europa. O partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) não
hesitou em atribuir culpas à chanceler pelo ataque, o qual não podia ter vindo
em melhor hora para a oposição, tendo em conta as próximas eleições gerais já
em 2017. Merkel estará pressionada entre a oposição que a tentará derrubar e os
seus correligionários, que a instarão a endurecer a política de aceitação de
refugiados e mesmo as medidas de segurança interna. Duvido que Merkel ceda a
essa pressão, mesmo que perceba que isso lhe custará as eleições. Se ceder,
perdê-las-á de certeza, porque nada a demarcará dos restantes partidos.
Esta é a
hora de Merkel se afirmar e de mostrar se é líder de eleições ou líder de
nações. O terrorismo já provou ser politicamente decisivo aquando do atentado na
estação de comboios de Atocha em Madrid em 2004, que levou à derrota de José
Maria Aznar. Doze anos volvidos, o mundo é hoje bastante diferente. O
terrorismo tornou-se parte do léxico diário e o efeito de atordoamento das
populações é menor. Mas líderes precisam-se, agora mais do que então. Julgo que
Merkel não mudará o discurso, mas continuará gelada pelo frio alemão, no mesmo
lugar, incapaz de dar o passo à frente ou o passo atrás. Duvido que seja capaz
de descolar do discurso do rigor orçamental e do cumprimento das regras
económicas e em vez disso revelar um verdadeiro sentido de Estado e de nação e
ter a ambição de finalmente olhar para os verdadeiros problemas da Europa e do
mundo, neste momento de sério risco de perder os valores de liberdade e
solidariedade e de encetar um conflito global. Será esta falta de estadismo que
derrotará Angela Merkel e não a sua política de receção de refugiados. O ataque
de Berlim é apenas uma circunstância infeliz que a põe à prova.
E, já
agora, Feliz Natal a todos. Com toda a liberdade religiosa e política que cada
um lhe queira dar.