As falhas de Cavaco não foram só à quinta-feira

Cavaco
Silva foi entrevistado esta semana por Vitor Gonçalves da RTP a propósito do
livro de memórias referente ao seu exercício como Presidente da República (PR).
Na entrevista, Cavaco não surpreendeu e nada acrescentou aos seus escritos. O
ex-Presidente parece ter olhado para os seus dez anos de presidência e
compreendido que os portugueses não o perceberam e que ele não percebeu os
portugueses. O livro surge assim como uma extensão do seu mandato presidencial,
que procura concluir o que ficou por dizer e fazer.
Ao
contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, vejo como extremamente útil, e em alguns
casos até como um dever, que os políticos que tenham exercido cargos
determinantes para o país publiquem as suas memórias. Julgo que Marcelo dirá o
dito pelo não dito e acabará por publicar as suas. Se não o fizer, será uma
grande falta para com os portugueses e a História. Seja como for, na vida
política de um país há dois tipos de passado: o passado “arquivado”, que ficou
resolvido e já não tem influência significativa sobre o presente e o futuro; e
o passado ativo, geralmente recente, que é ainda determinante sobre o momento
atual. Ora Cavaco Silva publicou as suas memórias apenas um ano após o término
do mandato, o qual diz respeito a uma das épocas políticas e sociais mais
conturbadas de Portugal, com a profunda crise económica, o resgate financeiro,
os sucessivos escândalos na banca e uma solução governativa inédita de
iniciativa parlamentar formada pela esquerda. Não defendo períodos de nojo
apenas porque sim. Mas impunha-se neste caso um distanciamento temporal necessário
para que a interpretação dos factos passados – que é sempre individualizada e
com algum grau de subjetividade – não contamine os factos atuais. Esta é a
primeira falha no rigor e institucionalismo de Cavaco Silva.
 “Quinta-feira e outros dias” é quase
exclusivamente dedicado a José Sócrates e à difícil convivência entre Belém e
São Bento. Sócrates seria sempre obrigatoriamente uma presença fundamental nas
memórias de Cavaco, não só porque foi o primeiro-ministro (PM) de serviço durante
mais de cinco anos em que Cavaco habitou o Palácio de Belém, mas sobretudo
porque protagonizou o pedido de resgate e várias outras polémicas, como o TGV e
o aeroporto da OTA – que não passariam de intenções, mas que alimentaram
querelas com a Presidência. Porém, o espaço imenso que Cavaco dá ao ex-PM é em
si o retrato de uma disputa e crispação que estiveram mais do que latentes,
sobretudo nos últimos anos do Governo do socialista. Esta discórdia é claramente
um assunto mal resolvido para Cavaco, que foi constantemente ultrapassado pelo
ímpeto de Sócrates: nas apresentações dos PEC’s, na condução ao pedido de ajuda
externa. Sócrates é para Cavaco Silva “Aquele Cujo Nome Não Deve Ser
Pronunciado”, a quem o ex-PR se refere várias vezes durante a entrevista da RTP,
com laivos de infantilidade, como o “primeiro-ministro do XVII e XVIII Governos
Constitucionais”.
Independentemente
das questões com o ex-PM, ao abrir ao público a porta das conversas semanais de
quinta-feira entre o Presidente e o chefe de Governo, Cavaco Silva abre também
um grave precedente que poderá abalar futuramente a relação de confiança entre
Belém e São Bento. Segunda falha no rigor e institucionalismo de Cavaco Silva.
Relativamente
ao xadrez partidário, Aníbal Cavaco Silva revela um pouco democrático
desrespeito pelos partidos de esquerda, ao reiterar, tanto no livro como na
entrevista, que nunca concedeu relevância ao Bloco de Esquerda e ao PCP. O paternalismo
com que adjetiva de “interessantes” as conversas que tinha com os líderes
desses partidos é um tratamento de desprezo aos cidadãos de esquerda. Ora o PR
é o presidente de todos os portugueses, independentemente do quadrante
político. Nenhum cidadão pode ser deixado de fora da magistratura do PR pela
sua ideologia. Não fora essa atitude discriminatória da esquerda e teria sabido
antecipar a eminência da Geringonça. Terceira falha no rigor e institucionalismo
de Cavaco Silva.
De facto,
Cavaco não soube ler o momento de viragem na política portuguesa, que culminou
na construção da Geringonça. O próprio admite que só percebeu as manobras de
António Costa no final do dia que se seguiu às eleições legislativas de Outubro
de 2016 – quando até durante a campanha foi deixado no ar o esboço de um
entendimento à esquerda. O ex-PR permaneceu agarrado a um tempo passado, a uma
tradição de entendimentos à direita e ao centro e não acompanhou a mudança
política do país e da Europa.
Por último,
o inefável caso das escutas. Por diversas vezes me insurgi e me indignei contra o que ficou por dizer e fazer neste processo gravíssimo e tão
graciosamente abafado da política portuguesa. A esta matéria Cavaco dedica um
capítulo inteiro, intitulado “As intrigas de verão de 2009”. No entanto, num
capítulo inteiro nada explica e nada acrescenta ao que já foi dito. Insiste na
tese da intenção jornalística de querer criar “factos políticos” durante a silly season. Faz tábua rasa da confissão
do seu ex-assessor Fernando Lima – no livro deste escrito no bafiento sótão da
Presidência –  e da notícia avançada pelo
Diário de Notícias acerca dos e-mails trocados entre jornalistas do Público, que
dão conta de que o caso teria sido denunciado ao jornal pelo próprio Lima e com
o aval do Presidente. E reitera a acusação de que a máquina do PS montou toda
esta trama para influenciar as eleições legislativas de 2009 e “denegrir” a
imagem do ex-PR. Portanto, além de não explicar o que aconteceu nem qual foi o
seu envolvimento neste processo, Cavaco faz acusações gratuitas que não tem a
mínima intenção de provar. Durante a entrevista, Cavaco Silva reage à abordagem
de Vitor Gonçalves ae este assunto com uma postura claramente desconfortável e
evasiva. Mais um assunto mal resolvido, desconfio que não porque não possa mas
porque não queira. O livro teria sido uma excelente oportunidade para
finalmente esclarecer este episódio gravíssimo, digno de um filme de espionagem
da Guerra Fria, mas tão pouco habitual na política portuguesa. Quarta falha no
rigor e institucionalismo de Cavaco Silva.
Sejam quais
forem as memórias que Cavaco Silva escreva ou venha a escrever nos prometidos
volumes que se seguem, a memória que grande parte dos portugueses guarda dele é
a de um homem derrotado, agarrado a um tempo passado, que não soube acompanhar e
perceber a evolução política e social no início deste século XXI. Um
institucionalista rigoroso, que nem conseguiu ser fiel a estas suas qualidades.
Um ex-Presidente que procura agora justificar-se aos portugueses e a si próprio
por aquilo que escolheu não fazer durante os dez longos anos da sua
presidência.