Não há pipocas no Eurogrupo nem no Ecofin

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As reuniões do Eurogrupo e do Ecofin da semana que findou, onde desfilaram os ministros das Finanças e da Economia respetivamente da zona euro e da União Europeia, foram ricas em entretenimento. Tiveram de tudo o que já vimos numa noite de Óscares: o anúncio do vencedor que já todos esperavam, a atribuição de um importante prémio que afinal não era bem assim e exigiu compasso de espera para a verificação dos envelopes e a apresentação por um artista a que já ninguém acha graça mas que se tolera porque, coitado, está em fim de carreira. Nem faltou o momento da graçola apalhaçada com mensagem nas entrelinhas por um dos atores a que todos os colegas prestam vassalagem.

Nos palcos das finanças de Bruxelas, o prémio revelação continua a ir para Mário Centeno. Desta vez, com mais um triunfo: a tão aguardada saída do PDE (Procedimento de Défice Excessivo). Após todo o esforço por parte dos portugueses, que sempre esbarrou na teimosia europeia, esta notícia é recebida mais como algo que tarda do que algo que se festeja – porque para esta e outras metas trabalhamos todos os dias, ao contrário do que parece ser o entendimento do vice-presidente da Comissão Europeia (CE), Valdis Dombrovskis.

E de vitória em vitória, o ministro das finanças português vai conquistando um lugarzinho entre os seus congéneres. De tal forma que a sua opinião já vai sendo por vezes solicitada. Mário Centeno tem um je ne sais quoi de graça natural na sua desgraciosa figura. A aura de milagreiro das contas públicas nacionais até parece casar com o jeito desajeitado das suas entrevistas e interpelações e do convívio com os seus pares. Portugal parece ter um patinho feio em todos os setores, e se no Verão passado Éder calou a Europa com um golaço glorioso, em 2017 é Centeno quem é levado em ombros pela Comissão.

Ou talvez não. Receio que a popularidade do ministro português entre os parceiros europeus não seja mais do que uma constatação a contragosto dos bons resultados, enquanto se vira a cara para o lado num esgar de desdém. Mário Centeno não pertence ao grupo da elite do Eurogrupo. Não afina pelo mesmo diapasão, não fala a mesma língua. Centeno, e todo o Portugal atual, representam a coragem de mostrar que há alternativa. E ainda por cima uma alternativa que resulta melhor do que a cegueira da austeridade e a penitência do empobrecimento – e é isso que desarma com requintes de irritação Wolfgang Schäuble e seus lacaios.

O epíteto de Cristiano Ronaldo, que o ministro das finanças alemão repetidamente procura vestir ao homólogo português, está longe de ser um elogio, ao contrário da interpretação que a comunicação social tem passado. Sem querer questionar o mérito do futebolista português, a imagem internacional de Ronaldo é de alguma fanfarronice, de muita aparência, de culto de si próprio e de individualismo. A comparação de Centeno a Ronaldo é na realidade uma forma hipocritamente simpática de dizer que os bons resultados da política económica portuguesa são à custa de aparências fabricadas por um grupo de fanfarrões, com Mário Centeno à cabeça. Schäuble não vê no ministro das finanças português alguém válido.  A sua ortodoxia cega-o para a alternativa. Que ninguém se engane: é mais o fel que o mel.

Se os Óscares também já nos habituaram a gafes, e algumas bem sérias, a reunião do Eurogrupo desta quinta-feira também nos trouxe um prémio anunciado que afinal poderá não ser atribuído. Tudo parecia estar aprovado para a libertação de mais uma tranche de 8,5 mil milhões de euros no âmbito do programa de resgaste financeiro à Grécia. Contudo, o ministro da economia espanhol, Luis de Guindos, engrossou a voz e mandou parar o baile, ameaçando que Espanha não aprovará (e com isso inviabilizará a transferência). Tudo porque as autoridades helénicas acusaram três funcionários da UE (um espanhol, um italiano e um eslovaco), a par de três cidadãos gregos, de má fé na elaboração de um relatório relacionado com a venda e posterior arrendamento de 28 imóveis públicos. Os três funcionários europeus, que se arriscam a penas de prisão, faziam parte das equipas de trabalho criadas pela CE para assessorarem o governo grego no programa de venda de bens públicos e o relatório que elaboraram terá feito o tesouro helénico incorrer em perdas de centenas de milhares de euros, segundo Atenas. Poderia parecer teia de um mau filme de conspiração, mas é apenas uma manobra de um Estado-membro de obstruir a justiça de outro Estado-membro soberano, ao qual deve ser reconhecida toda a competência e legitimidade de investigar e julgar se se sente lesado. Na Europa da igualdade e da fraternidade, os sonhos vendidos por Hollywood esfumam-se quando a vulnerabilidade financeira de um país é usada como chantagem.

É um triste espetáculo de vaidades a que assistimos, nesta Europa de votos comprados, onde se perpetuam vícios e preconceitos e os vencedores e perdedores são sempre os mesmos. Assim, não há pipocas que nos valham…