O Verão volta a cantar um fado triste

pedrogao grande

Deixámo-nos ultrapassar pelo fado. Mais uma vez. Triste sina esta, neste Portugal do meu coração, que nos leva a alma consumida pelas chamas em cada Verão. Em todas as épocas estivais se erguem as labaredas, e é o ai jesus!, e do céu chovem promessas, tal desgraça não tornará a cair sobre nós, porque é desta que vamos reformar tudo, a floresta e os meios e os bombeiros e os aviões e até a chuva e o vento. Mais um ano e tudo se repete: a desgraça, as cinzas, o desespero, o pânico, a perda, a morte. E apesar da tragédia sem precedentes desta época de 2017 ainda em início e das exortações de que a dimensão terá pelo menos o papel de fazer com que desta vez se tome mesmo alguma medida, a perspetiva que tenho, infelizmente, é de que os próximos Verões serão iguais a todos os outros.

 

Em Agosto do ano passado, em plena época de incêndios, a perplexidade e a aflição atingiram-me quando vi toda uma ilha da Madeira ficar encurralada entre o mar e o fogo. Na altura, voltou a ser discutida toda a parafernália de medidas necessárias para prevenção e combate aos incêndios, que, vê-se agora, e à semelhança dos outros anos, não passaram de intenções e de mediáticos debates nas televisões. Este ano, embora Pedrógão Grande não estivesse rodeado de mar, foram as chamas que o cercaram, invadindo indiscriminadamente matas e casas e vidas.

 

E a verdade é que nunca se viu mesmo nada assim. As condições meteorológicas podem ter sido particularmente adversas, as acessibilidades especialmente difíceis, a progressão inesperadamente rápida. Mas nada explica que em pleno século XXI, num país da União Europeia, se percam 64 vidas num incêndio florestal, a maioria delas numa estrada de morte que se quer de memória. Uma realidade que mais parece de terceiro mundo. Não podemos aceitar isto ano após ano. Não devemos aceitar.

 

Não sou de forma alguma especialista na matéria. Não vou repetir as propostas que escrevi aqui há cerca de um ano. Outros já propuseram este ano e muito melhor do que eu. Muitos fatores estão em jogo: o ordenamento das florestas, o sistema de comunicações, o famoso SIRESP, o número e a formação dos bombeiros e restantes operacionais, os meios de combate, a Proteção Civil, entre outros. Não se sabe ainda o que falhou. Provavelmente foi um conjunto de coisas. Com certeza os bombeiros não chegaram aos locais por não quererem nem os agentes da GNR encaminharam as pessoas para a N236-1 sabendo que o fogo as consumiria. Mas não nos venham dizer, como disseram, que se fez o máximo que se podia ter feito. Já passou o tempo de apagar o fogo e de socorrer vítimas. Já que mais não se pode fazer por quem pereceu, ao menos que se investigue o que espoletou tamanho inferno e o que o fez agigantar-se de forma apocalítica. Tal investigação séria e eficaz é devida a quem perdeu vidas e bens de uma vida, a quem foi exigido o esforço hercúleo de tal combate e a um país que assistiu incrédulo a uma tragédia inimaginável.

 

As respostas começam a surgir e o enfoque está para já no sistema de comunicações: é incompreensível e inaceitável que não tivessem sido devidamente testadas, com a época de incêndios à porta e ainda para mais com um fim de semana que se anunciava tórrido. Uma das unidades do SIRESP estava conhecidamente avariada há 1 mês, desde a visita do Papa. Depois do sufoco que foi com os incêndios do ano passado, a reforma das florestas estava ainda na gaveta. Este pode bem ter sido o primeiro tropeção do governo de António Costa e o início de uma curva descendente a partir daqui.

 

E depois da investigação, a ação. Os relatórios, por si só não limpam florestas, não definem planos de operações. Não é compreensível, não é aceitável, que tenhamos muito mais incêndios que os restantes países do Sul da Europa, onde o clima é comparável, com o adicional de em Portugal a área florestal estar a reduzir. Os planos para as florestas não podem ficar nas gavetas anos, décadas. Têm de ser verdadeiramente implementados e tem de haver fiscalização no terreno. De uma vez por todas, temos de acabar com as mortes por incêndio florestal.

 

Que vil maldição é esta que paira sobre a nossa floresta? Uma floresta que se quer verde, limpa, pulmão de ar puro num planeta que aquece, sustento económico de nações e de famílias. Mas não é a floresta que está amaldiçoada, são os homens que só se lembram dela quando é tarde demais. Neste Verão que ainda agora entrou, já vertemos as primeiras lágrimas. O nosso fado de Verão teima em não ser alegre. Estaremos condenados a morrer às mãos da nossa floresta?