A indecência dos números de Pedrógão

 

64… 65… 80… Até podiam ser 100, ou 1000… Porque 1 já seria demasiado.

 

A tragédia de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos foi esta semana reduzida a números e a listas, numa incrível exploração jornalística até à depauperação, imediatamente cavalgada pelo mais deplorável aproveitamento político. Estas almas, que se inflamam na indignação entre o 64 e o 65, são demasiado pequenas para perceber a real dimensão de mais de 6 dezenas de mortos, de 2 centenas de feridos e outras tantas casas destruídas e de mais de 50 mil hectares ardidos. E para imaginar o desespero de ter as chamas à porta durante 5 dias consecutivos e o sofrimento de perder ou ver perder tudo.

 

O Expresso veio lançar mais achas para esta fogueira, que já arde há demasiado tempo. Haveria uma lista escondida, fizeram crer os jornalistas do semanário, com mais mortos, que o Governo não queria divulgar. E escarrapachou-os todos na edição de sábado passado. Todos os nomes, de onde vinham, para onde iam e até a mesa que deixaram posta para o jantar. Poderão ter tido autorização dos familiares para divulgarem estas informações – creio que a tenham pedido e que lhes tenha sido concedida, porque acredito na seriedade dos jornalistas do Expresso – mas honestamente não vejo qual é o interesse público de discriminar nomes, quem era casado com quem e quem fora visitar quem para compreender o que se passou naqueles dias fatídicos. Sobretudo quando a lista, que anuncia em parangonas uma monumental ocultação de cadáveres, vem afinal dar conhecimento de apenas mais um caso, que já estava em investigação pelo Ministério Público.

 

A oposição não perdeu tempo a sair em busca da lista escondida. Hugo Soares, acabadinho de saltar da jota laranja para a liderança da bancada parlamentar, não deixou de aproveitar o drama da morte e da perda para debutar. E fê-lo com um marcante ultimato, em que deu 24 horas (mais um número) ao Governo para divulgar a lista real das vítimas. Seria hilariante este episódio de menino rufia, não fosse o assunto tão grave e a política de tão baixo nível. Porque quando se faz um ultimato, esperam-se consequências para quem não o cumprir. Neste caso, talvez Hugo Soares desafiasse Costa para um honorífico duelo de espadas… ou talvez se ficassem por uns açoites. Mas não, nada disso. Quando questionado sobre o que faria o PSD caso o Governo não respondesse favoravelmente, Hugo Soares limitou-se a responder que ia “esperar que o Governo tenha o bom senso, a humildade e a decência democrática de, em 24 horas, apresentar essa lista”. A verdade é que o Governo não apresentou a lista em 24 horas, porque não tinha de o fazer. Quem o fez foi o Ministério Público, que está a investigar o caso.

 

Muita coisa falhou com certeza naqueles dias em Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, embora não seja ainda conhecido o quê. Mas desde o início que foi tornado público que havia vítimas mortais, num número que foi sendo crescentemente atualizado até chegar a um vergonhoso 64. Desde o início que se conhecem as circunstâncias das mortes, as imagens dos carros carbonizados na estrada, as casas queimadas, os poços que salvaram alguns, as fugas que mataram outros. Nenhum Governo enfrentaria tamanha catástrofe e arriscar-se-ia a esconder 1 ou 2 vítimas – que afinal não constam da lista porque a sua morte está ainda sob investigação. É absurdo. É um pensamento de gente demasiado pequenina e interessada em subir mais uns degraus na profissão de jornalista ou na política à custa de um acontecimento que devastou vidas e concelhos.

 

64 ou 65… Perdoem-me a brejeirice, mas só me consigo lembrar da palavra que Eduardo Catroga provavelmente usaria como epíteto para esta discussão, e que começaria por ‘p’… mas que me recuso a reproduzir aqui, por respeito para com as vítimas e para com os leitores. O que as vítimas destes incêndios merecem, e também todos os portugueses que têm demonstrado a sua solidariedade e que contam com as autoridades nacionais em caso de necessidade, é que ao menos haja decência política quando se fala dos que o Estado foi incapaz de proteger.