Em Pedrógão nada de novo


Do que aconteceu em Pedrógão Grande está quase tudo por saber. Duas semanas volvidas, sabemos o mesmo que sabíamos no ponto de partida, ou menos. A informação chega a conta-gotas e em contradição. Parece haver pouco interesse em que se apurem os factos. O que se sabe ao certo é que ardeu mais de um concelho e 50 mil hectares e 64 vidas.

O primeiro a sair foi o relatório do SIRESP. E parece uma rábula de um qualquer programa humorístico, na medida em que se ridiculariza a si próprio. Ou isso ou pretende ridicularizar todos os portugueses, o que é mais grave. Aponta várias comunicações falhadas, mas conclui que não houve falhas. Apresenta várias situações de saturação e aventa (ou inventa) uma percentagem de 34% em vez de 52% de chamadas ocupadas para uma das estações móveis (90 mil chamadas ocupadas em 171 mil realizadas) – ora não é difícil, é só fazer as contas. Podemos estar aqui perante uma manipulação de números, que exige de facto uma auditoria independente.

Mas a resposta da Proteção Civil e da Secretaria Geral da Administração Interna (SGAI) são também dois episódios lamentáveis desta novela, reveladores do trágico desgoverno que se nos apresenta, como se não bastasse a tragédia humana e ambiental. Assistimos a um triste espetáculo de acusações mútuas, de passa-culpas entre as entidades envolvidas, que é simultaneamente um sacudir a água do capote e um assumir de que ou todos funcionaram mal ou todos se coordenaram mal.

Este caso tem sido gerido com pinças por quase todos os atores políticos, diria eu. Por um lado, porque responsabiliza sucessivos governos de todas as cores pela má gestão da floresta e dos meios de socorro. Por outro lado, é um acontecimento demasiado dramático, que foi coberto de forma muito vívida pela comunicação social e que colocou todo o país em choque. Não só o número de vítimas mortais, mas a forma como as pessoas foram encurraladas pelo fogo, mexeram com a sensibilidade de muita gente e desencadearam uma enorme onda de solidariedade. Todos os políticos deste país sabem que o mínimo passo em falso pode ser um tiro no pé. Passos Coelho já deu um, com a gafe dos suicídios. Mas o que ninguém perdoaria seria um aproveitamento político da desgraça de quem sofreu nestes incêndios. Até agora, a oposição PSD e CDS tem feito o seu papel de pedir os devidos esclarecimentos, num tom mais ou menos comedido, mas é natural que com o passar do tempo comecem a endurecer a sua posição. O Bloco de Esquerda soube capitalizar a sua posição como alternativa, ao pressionar e simultaneamente ajudar a aprovar a proposta de limitação de expansão do eucalipto e de arrendamento compulsivo de terras abandonadas (proposta esta que tem contudo o problema de penalizar as famílias de baixos recursos). Só o PCP parece ter ficado a falar sozinho neste debate.

Já o primeiro-ministro tem gerido a maior crise do seu governo de forma extremamente hábil, como habitualmente (o que não quer dizer que concorde). Perante uma situação em que lhe são exigidas respostas, não querendo dá-las, opta por fazer perguntas. As respostas chegarão, mas mais tarde e em versão suavizada, com responsabilidades diluídas por várias entidades. Mas talvez não evite a queda da ministra da Administração Interna. Constança Urbano de Sousa não tem sido pronta nas respostas, não ordenou os inquéritos que deveria ter ordenado e tem com certeza responsabilidade na profunda reestruturação da Autoridade Nacional da Proteção Civil em curso desde o início da época de incêndios, que está a levar à centralização dos comandos e ao desconhecimento dos locais.

Apesar das críticas, Marcelo Rebelo de Sousa foi quem teve mais visão em toda esta crise. Talvez não tenha percebido imediatamente a verdadeira dimensão da catástrofe, mas foi o primeiro a perceber que podia ser grande e foi ele que assumiu o leme das tropas naquele fatídico sábado, quando tudo parecia perdido. E talvez tudo se perdesse mesmo se assim não fosse. O que se viu naquela noite, o caos completo, os responsáveis políticos – supostamente os líderes máximos – totalmente descontrolados, a deitarem a toalha ao chão e sem liderarem coisa nenhuma, nunca se devia ter visto. Marcelo fez mal em ter dito que se estava a fazer o máximo que se podia. Mas fez muito bem em puxar pelos ânimos e restabelecer o comando. É isso que um líder deve fazer. E um político, mesmo não sabendo combater, tem a responsabilidade moral de liderar o seu povo em tempos de crise. O Presidente da República substituiu-se ao secretário-geral, à ministra e até ao primeiro-ministro. E agora, passada a tempestade, vem acalmar os ânimos, mas continua a exigir respostas e legislação, e rápida, para que não se repitam estes dias de sufoco. Mais uma tirada para o valor acrescentado de Marcelo.

Muita gente quer ver cabeças rolar quando nada mais há a fazer perante uma perda tão grande. É uma espécie de catarse. Pela minha parte, o mais importante é perceber o que falhou para se corrigir e não se voltar a repetir semelhante calamidade.