O Verão horribilis do governo

Este vai ficar na História como um Verão negro, não só para o país, mas sobretudo para o Governo. E ainda mal começou esta silly season que, tão tola, nos ocupa com discussões sobre combate a incêndios e vigilância de paióis, em vez de nos deixar tempo para estivais devaneios. A culpa talvez seja deste país, que por estes dias tem ido a banhos que vêm do céu em vez do mar – julgo até que devemos exigir do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) um relatório detalhado sobre as causas deste incidente que tem estragado as férias de tantos portugueses.

 

O fogo de Pedrógão Grande não se limitou a consumir uma área de quase 50 mil hectares. Lavrou um país inteiro e pôs a descoberto um sistema descoordenado, em que as chefias estavam perdidas e em pânico. Uma morte é sempre demais, mas 64 são totalmente injustificadas num incêndio florestal num país como o nosso em pleno século XXI.  Após três semanas, não sabemos ainda o que se passou nem o que falhou – porque muita coisa falhou, de certeza – e duvido que venhamos a ter um cabal esclarecimento, tendo em conta o triste espetáculo de arremessar de culpas interinstitucional na praça pública. A ministra esteve mal desde o início, já aqui o disse. E continua mal. Mantém o silêncio, deixando toda a oposição falar e especular sobre a falta de meios e a reforma da floresta. Mantém o silêncio, deixando as vítimas do incêndio e todo um país que a ele assistiu estupefacto sem resposta. A única resposta que temos de Constança Urbano de Sousa é que “foi o pior dia da [sua] vida”. Mas o que realmente se espera da ministra da Administração Interna não é simpatia e lágrimas – é comando, esclarecimentos e medidas para que semelhante tragédia não volte a acontecer. Não me parece que Constança Urbano de Sousa esteja em condições de dar isso.

 

Ainda com Pedrógão por resolver, acontece o roubo em Tancos. E agora uma série de interrogações sobre o estado da vedação e da videovigilância, as rondas, o estado das forças armadas portuguesas. Mais importante talvez é o destino do material roubado – terrorismo interno ou externo, tráfico de armas, crime organizado (coisa pequena não será com certeza) – e o enquadramento internacional de que este caso se reveste obrigatoriamente. Por isso mesmo, pela dimensão do roubo e pela invasão (fácil) a uma das mais importantes instalações militares do país, este é um caso de extrema gravidade. Não é inédito, nem sequer a nível internacional – o que não significa que devamos descurar a vigilância a ponto de permitir que aconteça. Contudo, também não tem sido gerido da melhor forma. É obvio que o ministro da Defesa não tem de saber como é feita a vigilância dos paióis. Mas há chefias militares responsáveis por isso, nomeadamente as de Tancos. A exoneração temporária dos cinco militares pelo Chefe de Estado Maior do Exército para não interferir com as investigações é, no mínimo, estranha, e estranho é também o ministro Azeredo Lopes e o Presidente da República, que estão acima na cadeia de comando, terem aceitado essas exonerações. Claro que imediatamente deu azo a protesto no seio do corpo militar, chegando a estar convocada uma manifestação, que acabou por não acontecer. A questão das cativações ou cortes – não interessa o que lhes queiram chamar, o efeito de depauperação dos serviços nacionais é o mesmo – não tardou a ser levantada pela oposição PSD/CDS, que não vai largar este bom osso enquanto puder, já que bem procurou durante mais de um ano e outro não encontrou. De estranhar é a passividade dos partidos de esquerda perante tudo isto, que, se o governo fosse de direita, por esta hora já teriam exigido a cabeça de todos os ministros e secretários de Estado implicados e criticado as cativações ou cortes que deixam armas sem vigilância em nome de défices impossíveis. Ou talvez a estranheza seja apenas sinal de quem perdeu a coerência por estar comprometido com a governação.

 

Entre os casos de Pedrógão Grande e de Tancos há um paralelo: falta de liderança dos ministros. Estes casos serviram para demonstrar que os ministros em causa ou não têm autoridade ou a árvore hierárquica abaixo deles é um emaranhado de frágeis troncos que quebram e que não sabem em que direção crescem, ou ambas as situações. A estratégia do Governo até agora tem sido a de resguardar António Costa, mandando-o de férias e deixando os ministros a torrar no Verão. Constança Urbano de Sousa e Azeredo Lopes estão irremediavelmente fragilizados, porque não foram assertivos na gestão das crises que assolaram os seus ministérios. Costa está de volta e vai agora pegar nas batatas quentes, mas quando já estão mornas. Uma remodelação é sempre uma incógnita antes das eleições autárquicas – tanto pode afastar fantasmas como fazer descer nas sondagens. Mas com todo um Verão ainda pela frente, estaremos sempre a tremer perante cada incêndio sempre que olharmos para Constança Urbano de Sousa.