Charlottesville: o ponto de viragem

Barcelona foi alvo de mais um ataque terrorista, com o modus operandi a que, infelizmente, já nos habituámos. O mesmo que em Charlottesville tirou a vida a uma pessoa. As motivações são diferentes, é verdade. Mas não deixa de ser terrorismo. Enquanto todo o mundo condena atos terroristas, só Donald Trump é capaz de ver legitimidade no massacre que ocorreu no seu país. A supremacia branca ameaça a superioridade do presidente. Este pode ser o ponto de viragem interno para Trump.

 

Donald Trump nunca escondeu, ao longo do seu percurso empresarial nem da campanha eleitoral, as suas ideias racistas. Ficou claro o seu preconceito contra os mexicanos, a quem apelidou de assassinos, traficantes e violadores. A ideia do muro foi aventada por Trump como quase tudo o que se propõe fazer: sem pensar. Dá-se o caso de não ser exequível pelas razões que já haviam sido apontadas durante a campanha: por ser muito dispendioso e porque não há forma alguma de obrigar o México a pagá-lo. Quero crer que nem Trump acreditava nisso e a prová-lo está, sabe-se agora, o telefonema para Enrique Peña Nieto a pedir-lhe que não dissesse à imprensa que o México afinal não paga o muro. Enfim, um entretenimento próprio de um homem de reality show, que nos foi realmente entretendo e emprestando alguns sorrisos e gargalhadas.

 

Pouco tempo depois de tomar posse, o presidente procurava banir a entrada no país de cidadãos provenientes de sete países de maioria islâmica. Depois de muitos entraves nos tribunais e da oposição de grande parte da população e de empresários americanos, a ordem executiva de Trump acabou por conseguir uma vitória parcial no final de Junho, permitindo a sua aplicação mas apenas a cidadãos de seis países (deixando o Iraque de fora da lista, com o argumento de que os iraquianos estavam a ajudar na luta contra o Daesh) e permitindo a entrada a quem já tenha estabelecido uma relação de boa-fé com pessoas ou entidades dos Estados Unidos.

 

Porém, as reações do presidente norte-americano aos acontecimentos de Chalottesville ultrapassaram tudo o que é expectável, mesmo de Trump. Foi clara a sua concordância com os valores defendidos pelos manifestantes xenófobos. Foi inequívoco o seu partido pelos valores da supremacia branca e da história esclavagista americana. Foi óbvia a apologia da violência contra a violência, do “olho por olho, dente por dente”. O ato cobarde e assassino com que um dos extremistas espalhou o terror nas ruas da cidade não foi condenado com a veemência que compete a um chefe de Estado. E não foi porque Trump acredita que não deve ser.

 

Ninguém no mundo entendeu ou apoiou Trump a propósito de Charlottesville. Mas, para um presidente que escolheu falar e governar para dentro, o mais importante é que ninguém no seu país o entendeu ou apoiou. Exceto o Ku Klux Klan e similares, o que é sintomático. Donald Trump diz que age em defesa da história dos EUA. Mas não entende que está a acordar velhos fantasmas, ainda mal resolvidos, de valores tão complexos como igualdade étnica e escravatura. A sociedade americana ainda transporta as feridas da guerra civil que dilacerou a nação. E é agora Trump quem vem dividir o país. Porque pode conseguir perceber o que quer o operário branco e o médio empresário, mas não tem sensibilidade para entender o seu povo, a sua história, as suas conquistas e os seus valores.

 

É por isso que Chalottesville pode ter sido o ponto de viragem para Trump. A partir de agora, o terreno para a sua saída será cada vez mais em rampa descendente. Será provavelmente o caso da interferência russa que o poderá afastar da presidência, mas é Chalottesville que o afasta dos americanos. Ninguém quer estar associado a quem defende o radicalismo e a quem legitima a violência. Os apoiantes engrossam cada vez mais a ala dos opositores. No interior da Casa Branca, o seu núcleo duro encolhe de dia para dia, e esta semana conheceu outra saída de peso: Steve Bannon, o seu principal conselheiro. Os ex-presidentes vêm a público criticar Trump. O partido republicano demarca-se, mas não se livrará certamente do custo de uma crise. A imprensa, claro, tem o presidente constantemente na mira. E os empresários conselheiros abandonam a Casa Branca um a um. O que nos salva dos que nos querem condenar ao isolacionismo é que eles fiquem isolados primeiro.