Europa: ordem para expulsar refugiados

 

Não tem fim a hipocrisia europeia. O velho continente, que apregoa a solidariedade e os direitos humanos, prepara-se para devolver à Grécia milhares de refugiados que requereram asilo em países europeus. Serão mais uns milhares a amontoar-se nos inóspitos campos de refugiados gregos, com vidas suspensas, maltratadas e escorraçadas, que não encontram o seu lugar no mundo.

 

A medida advém da regra de Dublin, segundo a qual deve ser o país comunitário de primeira chegada a gerir o pedido de asilo. No entanto, devido à crise financeira que tem assolado a Grécia, a regra não era aplicada desde 2011. Agora, vai abranger refugiados que saíram da Grécia em direção a outros países da União Europeia (UE) desde Março de 2017. A Alemanha já apresentou cerca de 400 pedidos de realojamento, bem como França, Holanda, Reino Unido e Noruega (este país, apesar de não pertencer à UE, é signatário do Acordo de Schengen). A Grécia poderá assim ver engrossar ainda mais a crise humanitária que lhe bateu à porta sobretudo a partir de 2015 e com a qual tem revelado extrema dificuldade em lidar.

 

Quem já esteve na milenar Atenas ou nas paradisíacas ilhas gregas que polvilham o mar Egeu conhece este cenário. Os refugiados do Médio Oriente arrastam-se pelas ruas, lado a lado com turistas e habitantes locais, com ar perdido, alheado. Não pertencem ali – sabem disso porque lhes fazem sentir isso. Nos centros de acolhimento e campos de refugiados, os dias são todos iguais: espera. Espera por desenvolvimentos dos pedidos de asilo e de reunificação, que são constantemente adiados; espere mais um dia, mais um mês, ou mesmo mais de um ano, perdemos os seus papeis ou arderam no último incêndio no campo de Moria. E começa-se tudo outra vez. A comida é quase sempre sandes. Nos campos dorme-se e senta-se no chão. As crianças brincam às guerras, porque vêm delas e vêm para pouco melhor que elas. Não há trabalho, não há escola, não há direitos, não há respostas, não sabem para onde vão nem quando vão nem se vão algum dia. As pessoas esperam e desesperam. Há tentativas de suicídio todos os dias. E se não passar de tentativa, o dia seguinte é igual: espera e desespero. As ONG’s fazem o que podem – e fazem muito, entre apoio médico, psicológico, atividades com crianças e assistência alimentar e de bens de primeira necessidade. Mas não podem fazer o que estas pessoas mais necessitam – dar-lhes uma vida digna, como eu ou tu temos.

 

Com o vergonhoso acordo UE-Turquia, a chegada de refugiados à Grécia diminuiu significativamente. Mas continuam a chegar todas as semanas. Ainda esta segunda-feira, foram 330 os migrantes desembarcados nas ilhas gregas. O que confirma que, quando a necessidade se impõe, não são regras discricionárias e desrespeitadoras dos direitos humanos que criam barreiras ao ímpeto da sobrevivência.

 

De acordo com o Ministério do Interior helénico, estima-se que sejam 14 mil os refugiados em território grego com as vidas em suspenso. Com a expulsão dos países da UE, este número aumentará. O ministro grego das Migrações, Yannis Mouzalas, não adianta ainda se estas pessoas serão integradas na sociedade grega, se permanecerão em centros de acolhimento ou se serão deportados para os países de origem. Apesar de a situação financeira da Grécia estar hoje melhor do que quando estalou a crise dos refugiados, as contas gregas estão longe de estar saudáveis. É chocante ver que a falta de solidariedade dos países da UE se estende também aos seus congéneres europeus. Com a mudança das rotas de migração para a Itália e Espanha, a estes países só resta esperar os mesmos afetos. E a Portugal também, caso a onda de imigração chegue à nossa costa.

 

Estive em Lesbos em missão de voluntariado já faz um ano e dois meses. O que descrevi aqui foi o que vi. E mais, muito mais. Ninguém volta indiferente. Quem lá vai deixa lá parte de si. Continuo em contacto e sei que algumas das pessoas que conheci continuam na Grécia, outras foram recolocadas em países europeus. Mas percebi que o que estas pessoas querem é uma vida tranquila em família, sem bombas, sem perseguições – não é o que todos queremos? É por isso que me choca a hipocrisia desta Europa que expulsa refugiados. A mesma Europa que condena atentados terroristas, que lhes chama assassinos, que se recusa a viver com medo e se desdobra em imensas vigílias e memoriais de flores e velas. E, no entanto, recusa a oportunidade da vida a quem foge da morte nos seus países.