Se Kim e Maduro pedem fogo e fúria, Trump dá

Há todo um oceano entre os Estados Unidos da América e a Coreia do Norte, que tem sido cruzado pelo escalar de um palavreado infantil de dois homens-meninos que jogam cada um no seu tablet, em rede, um qualquer videojogo de guerra. Estão ainda na fase de assistir ao reunir do arsenal bélico de um e do outro, enquanto trocam ameaças e impropérios em tom apocalítico, qual deles o mais eloquente. Não fosse o jogo uma ameaça real de guerra, e com requintes de nuclear, não fosse o tablet o mundo, e até poderíamos deixar as criancinhas divertirem-se nestas férias. Mas o caso ganha agora novos contornos quando se começa a revelar o verdadeiro papel da China em tudo isto.

 

O jornal estatal chinês Global Times publicou no dia 10 de Agosto um editorial em inglês com o título “Jogo irresponsável sobre a Península da Coreia traz risco de uma guerra real”, onde afirma que a China adotará uma posição neutra se a Coreia do Norte for a primeira a atacar os EUA. Contudo, se o primeiro passo vier de Washington e Seul e se estes tentarem alterar o regime político na península coreana, a China vai impedi-los.

 

Fica claro, se não estava já, que Kim Jong-un não é apenas um louco isolado. Tem o respaldo do velho aliado do seu país. A China tem vindo a apelar à moderação de ambos os países e até propôs por várias vezes uma dupla moratória: a paragem simultânea dos ensaios nucleares e balísticos de Pyongyang e dos exercícios militares conjuntos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul. No âmbito da ONU, a China até aprovou no sábado passado uma sétima série de sanções económicas internacionais contra a Coreia do Norte, em resposta aos disparos do país de mísseis intercontinentais, que têm já capacidade de transportar bombas nucleares. Contudo, na hora de tomar partido, a China não defrauda o aliado comunista. Se, num potencial cenário de guerra (que já esteve mais longe), a Coreia do Norte sairia sempre perdedora, quer a iniciativa de atacar partisse de Washington ou de Pyongyang, com o apoio chinês ao regime do sr. Kim o caso muda de figura. Isto porque certamente a Rússia não perderá a oportunidade de meter a sua colherada, acossada que está pela administração Trump e a aprovação de novas sanções contra Moscovo e o caso das interferências russas na campanha eleitoral norte-americana. Um eventual conflito Washington-Pyongyang pode, portanto, redesenhar a rede de influências geopolíticas e trazer finalmente para a luz do dia alianças entre potências até aqui inimagináveis. Quanto ao Japão, ali mesmo encostadinho, limita-se a ver cair as bombas no seu mar e a rezar para que nenhuma lhe caia em cima. Pelo sim pelo não, e vendo o caso malparado para aqueles lados, já começou a ativar o sistema antimíssil Patriot.

 

Por enquanto, a guerra é só de palavras e de exibição dos dotes militares. Mas Kim-Jong-un, que aplaude com ar tresloucado cada teste balístico, revela muito mais inteligência que o seu homólogo norte-americano. Trump, de facto, é dotado de pouco mais do que “fogo e fúria”. O presidente americano, na sua imensa bazófia de quem manda no mundo porque tem dinheiro para o comprar, dá ao sr. Kim exatamente o que ele quer: ameaças que justifiquem ataques e testes balísticos e o apoio incondicional do povo norte-coreano para gastar um quinto do orçamento do país na defesa, apesar da fome que afeta grande parte da população. O conceito de ódio ao atacante e colonizador americano que é cultivado nos norte-coreanos desde a mais tenra infância está bem explícito neste artigo do New York Times (jornal que, como se sabe, não morre de amores pelo presidente Trump).

 

Mas não é só a Coreia do Norte que ocupa os pensamentos do Donald Trump. O presidente norte-americano mostra-se preocupado também com a situação na Venezuela, onde, diz, as pessoas estão a “sofrer e a morrer”. E vem colocar em cima da mesa a eventualidade de uma intervenção militar americana no país. Mais uma vez, Trump vem dar a Nicolás Maduro exatamente o que ele quer: um bode expiatório que sirva de inimigo externo colonialista e usurpador, em torno do qual possa unir o país, incluindo os seus opositores, e legitimar o seu regime opressor.

 

Em apenas uma semana, Trump consegue encher de trunfos dois ditadorzecos de dois pontos do globo. E o homem consegue fazer tal proeza mesmo estando de férias. Muitos diriam por cá que António Costa deveria pôr os olhos neste presidente, que não deixa os destinos do seu país em mãos alheias nem mesmo para tirar uns dias de descanso. Mas antes deixasse. O mundo estaria talvez mais seguro. Donald Trump enganou toda a gente. Tinha prometido que seria a America first. Se Obama foi acusado de ser demasiado hesitante e passivo em matéria de política externa, Trump é com certeza excessivamente ativo e de uma forma totalmente errática e desprovida de bom-senso e de saber fazer (ou know how ou savoir faire, para quem gosta de estrangeirismos). Nem mesmo os generais de que se rodeou são capazes de mitigar cada vez que cospe “fogo e fúria” antes de pensar. Os ditadorzecos escarnecem pela facilidade com que cai nas suas patranhas. E o mundo vive em constante sobressalto.