Os solavancos da caravana das autárquicas

A uma escassa semana das eleições autárquicas, há resultados que já se cheiram no ar, mas alguns prognósticos só mesmo no fim do jogo. Seja como for, pelo andar da caravana, há várias mensagens que ficam desta campanha e pré-campanha, cuja dimensão é mais nacional do que local – um lado, aliás, que tradicionalmente contamina as eleições autárquicas.

 

1. Discurso anti-imigração do PSD. Este é um discurso novo e inesperado num partido social-democrata, tradicionalmente um dos dois partidos do arco da governação. E não parece ser uma mera excentricidade de um candidato-vedeta como André Ventura. A forma como o PSD lidou com o caso, mantendo o apoio ao candidato a Loures (e perdendo pontos para o CDS, que se demarcou) e as referências reiteradas de Pedro Passos Coelho contra a imigração fazem deste discurso uma linha de pensamento inédita num partido do mainstream da política portuguesa. Estamos a enveredar por um caminho muito perigoso, do qual Portugal se tem até agora mantido arredado, ao contrário do que se vê no norte e centro da Europa, em que os partidos de extrema-direita, nacionalistas e xenófobos parecem estar em ascensão (como ainda hoje vimos nas eleições alemãs). Seria irónico, se não fosse preocupante, ver quem apelida de extrema-esquerda os parceiros do PS na Geringonça ser agora o autor do discurso de extrema-direita. Esta será talvez a única novidade que Passos Coelho oferece aos eleitores do PSD, já que até agora tem sido incapaz de descolar da velha receita de austeridade e de se constituir como alternativa à atual solução governativa. E pode mesmo passar por aí a sua estratégia: tantas vezes em tantos países já vimos ondas populistas surpreenderem nas eleições.

 

2. A adversária de Medina. Se a tradição ainda fosse o que era, quando o favorito (e mais do que certo vencedor) à Câmara de Lisboa é do PS, o mais natural seria que o principal adversário fosse do PSD. Mas nas habituais trocas de galhardetes das campanhas, Fernando Medina tem dirigido o seu alvo para Assunção Cristas, ficando assim claro quem pode ameaçar a sua vitória. De facto, a líder do CDS tem feito uma campanha muito mais capaz, mostrando-se mais à-vontade nas ruas e bairros de Lisboa, do que a candidata do PSD. Teresa Leal Coelho tem estado apagada e, quando aparece, é como peixe fora de água. Não é que falte uma máquina de campanha que até arranja cenários para que a candidata fique bem na fotografia. Só que os cenários são fracos e desfazem-se como castelos de areia. É o caso da visita ao bairro ilegal de S. João de Brito, em que mal a comitiva laranja debandou do local, a presidente da Associação de Moradores desmentiu aos jornalistas tudo o que Leal Coelho tinha dito sobre o plano de requalificação do bairro. O PSD está tão desesperado em Lisboa que incentiva a sua candidata a percorrer as ruas da capital aos saltos ao som de “e salta, Teresa, e salta, Teresa”. Pior do que isto… O PSD arrisca-se de facto a um resultado desastroso em Lisboa e a ficar atrás do CDS. Mas não será uma derrota de Teresa Leal Coelho. A vice-presidente do PSD sabe que este é um sacrifício ao serviço do seu partido e que, após as eleições, voltará às suas funções partidárias e parlamentares, que são certamente a sua ambição.

 

3. A oposição entre os dois partidos da esquerda. Parceiros na Geringonça, mas adversários nas autárquicas. É sabido que bloquistas e comunistas nunca morreram de amores uns pelos outros, mas nestas eleições esgrimem acusações e argumentos, sabendo que desta vez estão mesmo a disputar votos. É assim que Joana Mortágua acusa Jerónimo de Sousa de pedir as maiorias absolutas que tanto critica e Jerónimo responde abespinhado que o alvo das críticas da esquerda deveria ser a direita. Mas isso era quando BE e PCP eram da oposição…

 

Independentemente dos solavancos da caravana, importa saber onde ela chega no dia 1 de Outubro. E em que estado chegam os seus viajantes. Sem grandes surpresas, aguarda-se a vitória do PS. O grande suspense está na diferença para o PSD, que tanto poderá ser em número de câmaras como na sua dimensão (sabendo que, à partida, Lisboa está perdida para Fernando Medina e o Porto para o independente Rui Moreira). Depois das autárquicas, teremos uma nova etapa em que será interessante ver as repercussões deste resultado eleitoral na liderança do PSD. Já Assunção Cristas parece ter a sua liderança afirmada no CDS, independentemente do resultado das eleições (a não ser que ficasse muito abaixo dos 7,59% de Paulo Portas em 2001, o que parece pouco provável). Aguarda-se para ver se o PCP consegue repetir o bom resultado de 2013 ou se, pelo contrário, será vítima do bom clima da Geringonça, cedendo algumas câmaras ao PS. Já o Bloco de Esquerda, um partido até agora com fraca expressão local, poderá ter uma expansão significativa, ganhando vários vereadores e talvez até Juntas de Freguesia. Outra possibilidade que se desenha para estas autárquicas serão as geringonças locais entre PS e um ou os dois partidos da esquerda. Em Lisboa, o Bloco diz-se “pronto para isso”, mas não será necessário se Medina conseguir maioria absoluta.

 

Temos mais uma semana para ver passar a caravana.