PSD: Partido Sob Desorientação

 

Desde que se viu surpreendentemente apeado do poder, nos idos do final do ano de 2015, que o PSD anda à deriva, desorientado, surgindo caricatamente como o partido mais perdido na atual cena política portuguesa. Percebe-se que tal se deve ao facto de manter obstinada e inexplicavelmente o mesmo presidente (e as mesmas políticas) que o país quis enxotar. Ao contrário do seu ex-parceiro de coligação, que soube sacudir dos ombros, pelo menos parcialmente, o peso de tão nefasta herança e apresentar-se de cara lavada e voz renovada. Nem parece que os laranjas têm o legado histórico e a máquina partidária que têm. Facilmente pensaríamos que andam nisto há meia dúzia de anos, a julgar pelas manobras infelizes e os tiros no pé que pautaram o encerrar dos trabalhos antes das férias de Verão e agora também a rentrée. Os próximos combates que se avizinham – eleições autárquicas e orçamento de Estado – serão provas duras para o Partido Sob Desorientação.

 

Os sociais-democratas entraram mal nas Autárquicas desde o início. Falta de candidatos, candidatos apresentados tardiamente, candidatos desejados que não avançaram, apoiantes pretendidos que recusaram aparecer – este é o guião laranja destas eleições, revelador de uma total descoordenação interna. O caso de Lisboa foi o mais patético, com um D. Santana no papel de D. Sebastião, que nunca apareceu nem para ser visto ao lado de uma Senhora que diz ser Lisboa, mas que pouco aparece ou fala pela cidade.

 

Já de Loures, falou-se e muito. André Ventura, candidato conjunto pelo PSD e CDS à Câmara da cidade, resolveu popularizar-se. Como a publicidade positiva é mais difícil e demora mais a conquistar resultados, optou pela publicidade negativa (seja como for, é publicidade). E trouxe para a direita do mainstream português o discurso xenófobo, algo a que só estávamos habituados a ouvir de grupos marginais como o PNR. Assunção Cristas percebeu a perigosidade desse novo terreno e foi lesta em demarcar-se. Ao contrário de Passos Coelho, que tem a mania de ser inabalável, mas cuja teimosia esconde apenas uma tremenda falta de visão e de capacidade de leitura política.

 

A receita de André Ventura deve ter agradado a Passos Coelho, que a copiou para a rentrée do partido na Festa do Pontal. Aqui, o caso foi ainda mais grave, porque não foi apenas um candidato local a adotar os valores racistas, mas sim o líder de um partido do arco da governação. A este propósito, Marisa Matias do Bloco de Esquerda foi bastante clara e contundente a colar o PSD ao discurso da xenofobia e a rejeitar que o país resvale para esse caminho. Irónico para quem acusa BE e PCP de serem de extrema-esquerda vir agora com posturas próprias de extrema-direita, não é? Seria, se não fosse extremamente perigoso.

 

E esta semana foi animada pelo regresso às aulas com mais uma Universidade de Verão laranja. O professor catedrático foi sem dúvida Cavaco Silva. Diz muito do estado da atual liderança do PSD que seja necessário vir dar pujança às suas hostes um político acabado, que cessou funções com uma popularidade nas ruas da amargura. Talvez o tom austero de velho do Restelo tenha encantado os sociais-democratas – que de tão desorientados até já se animam com Cavaco – mas não pareceu convencer a maioria dos portugueses. O que o ex-presidente piou sobre austeridade é cantiga velha em que o português já não cai, sobretudo depois de ver que a TINA (There Is No Alternative) esbarrou na realidade. O senhor professor deu uma grande lição àqueles jovens, eventuais projetos de políticos do nosso país: não vale a pena ter ideais, não vale a pena lutar por aquilo em que se acredita, porque a realidade destrói-nos – este é o tipo de pensamento que leva as sociedades ao alheamento e, em última análise, ao totalitarismo.

 

E depois deste rasgo de pedagogia, o sr. Institucionalidade deu umas valentes rabecadas no seu sucessor. Que fala demais, que tem “verborreia frenética”. Os dois têm estilos muito diferentes, mas ninguém tem dúvidas quem é o ‘presidente do povo’. Goste-se mais ou menos dos afetos, a verdade é que Cavaco Silva não soube vir a público prontamente em momentos em que o país precisava (como na crise do irrevogável ou mesmo após as eleições legislativas de 2015) nem transmitiu nunca energia positiva para ‘puxar’ pelos portugueses. Cavaco Silva não foi o presidente dos portugueses. Este ataque do ex-presidente da República a Marcelo Rebelo de Sousa foi desleal e ressabiado. Afinal, foi Cavaco quem falou demais e Marcelo foi o professor que deu a lição de respeito e contenção que anteriores e sucessivos presidentes devem observar entre si.

 

A encerrar o curso universitário, Paulo Rangel, no seu habitual estilo ‘toca e foge’, é outro social-democrata a aproveitar-se da tragédia dos incêndios. Mais uma vez, desorientação: ou o PSD já se esqueceu o quanto esta estratégia já lhe saiu cara? Não sejamos ingénuos ao ponto de pensar que a devastação causada pelos fogos este ano foi fruto apenas do clima, da seca e do acaso. É claro que o estado da floresta e os sucessivos cortes na prevenção e no combate, assim como a organização dos meios (ou melhor, a falta dela), também têm o seu papel. Mas porventura, estando emigrado, Rangel esquece-se que o anterior governo, do seu partido, também tem grande responsabilidade nisso. Tal como têm outros governos anteriores. Portanto, que não se atire areia para os olhos das pessoas e não se faça aproveitamento político à custa de vidas perdidas. Ninguém aceita esse tipo de jogadas.

 

O PSD de Passos Coelho é hoje um partido com uma liderança derrotada, incapaz de ser alternativa, que não descola da receita da austeridade e agora conotado com a xenofobia. A Geringonça pode ter uma fase difícil pela frente, com BE e PCP a endurecer as negociações do orçamento de Estado, regateando a integração de mais precários, uma maior descida do IRS e mais aumentos das pensões. Mas enquanto tiver Passos na oposição, Costa tem a vida facilitada. As Autárquicas poderão ser prova de fogo para o PSD. Se os laranjas conquistarem menos Câmaras do que nas últimas eleições, isso será uma derrota que pode ditar a queda de Pedro Passos Coelho. A menos que a desorientação seja tal que não surja uma alternativa credível.