Rohingya: os novos refugiados do país do Prémio Nobel da Paz

 

Há mais um povo perseguido e alvo de atrocidades de tal forma bárbaras que nós, resguardados neste cantinho de tão civilizada Europa, só podemos imaginar. Os Rohingya são um dos maiores povos apátridas do mundo, que não tem direito aos mesmos direitos dos cidadãos dos países que pisam o mesmo solo. E em Myanmar, tudo indica que estão a ser vítimas de uma onda de violentos crimes étnicos. Mais uma, a somar às das últimas décadas. A comunidade internacional fala mesmo em limpeza étnica. A líder eleita do país, Aung San Suu Kyi, Prémio Nobel da Paz em 1991 pela sua longa resistência contra a ditadura militar em Myanmar, não dá sinais de poder ou sequer querer conter a violência contra os Rohingya. Chegou ao fim a inspiração de força da frágil senhora, afinal corrompida por fraquezas desumanas como as dos comuns mortais? Ou a derrota parcial dos militares nas eleições de 2015 foi ainda mais parcial do que Myanmar fez crer ao mundo?

 

Os Rohingya são um povo com língua e cultura próprias, de maioria muçulmana, embora alguns sejam hindus. Estão confinados em Myanmar ao estado de Rakhine, de maioria budista, na região ocidental do país. Há evidência da sua presença nesse local desde há várias gerações, que alguns fazem recuar até ao século XV. Contudo, os Rohingya têm sido considerados desde sempre como imigrantes ilegais provenientes do Bangladesh durante o reinado britânico. É-lhes, portanto, negada a cidadania e direitos inerentes, como educação e assistência na saúde, além de serem histórica e sucessivamente alvo de discriminação e repressão violentas. A situação complicou-se  e foi notícia em 2012, em 2013 e em Outubro de 2016. Desde Agosto deste ano, os ânimos entre este grupo minoritário e as autoridades voltam a extremar-se, após um ataque sobre polícias e militares levado a cabo pelo ARSA (Arakan Rohingya Salvation Army), um braço armado de resistência do povo, que as autoridades de Myanmar acusam de ligações a jihadistas. É difícil saber o que se tem lá passado com exatidão – o acesso à imprensa tem sido barrado pelas autoridades, mas chegam testemunhos de organizações não governamentais e de alguns elementos Rohingya que entretanto fugiram. Mesmo salvaguardando a falta de informação, inclusive sobre o que esteve na origem dos confrontos, há cada vez mais evidências de uma injustificada escalada de violência por parte das autoridades de Myanmar. Os relatos são impressionantes e dão conta de atrocidades inqualificáveis: pessoas baleadas, raparigas e mulheres violadas, corpos queimados para destruir provas, aldeias inteiras incendiadas. A situação humanitária é dramática, o que já levou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a condenar os ataques pelas forças governamentais de Myanmar e a apelar à comunidade internacional para que envie toda a ajuda possível. De cerca de um milhão de Rohingya residentes em Rakhine antes do conflito, estima-se que até agora os confrontos tenham levado ao êxodo em massa de perto de 400 mil pessoas para o Bangladesh. Os novos refugiados para quem uma parte do mundo olha, enquanto outra parte se refugia da realidade do mundo em que vive.

 

Aung San Suu Kyi, a líder carismática de Myanmar, à frente dos destinos do país desde as eleições de 2015, tem sido criticada pelo Ocidente por nada fazer para resolver a crise dos Rohingya. Os apelos chegam inclusivamente de outros Pémios Nobel, como Desmond Tutu e Malala. Suu Kyi tem evitado pronunciar-se publicamente sobre o assunto, mas apoia as ações dos militares contra “os terroristas”. A rutura e o isolacionismo são a regra, como em todos os regimes que governam com a força e não com a razão. O cerco internacional terá levado Suu Kyi a cancelar a sua presença na Assembleia Geral das Nações Unidas no próximo dia 19 de Setembro.

 

Mas qual é o poder real de Aung San Suu Kyi para lidar com esta crise? Ela é de facto chefe do governo civil, mas em Myanmar o poder está ainda do lado dos militares. São eles que controlam a polícia e a defesa, para onde vai 14% do orçamento do país, mais do que a saúde e a economia somadas. E têm o poder de suspender o governo democrático. Após 20 anos de oposição, 15 dos quais passados em prisão domiciliária, a coexistência entre os militares e Aung San Suu Kyi é mais uma conveniência resignada do que uma convivência. Aung San Suu Kyi tem o povo de Myanmar, cansado da ditadura militar, do seu lado. Por isso, os militares viram-se obrigados a tolerá-la no cargo de conselheira de Estado, que, embora eleito, foi criado propositadamente para ela.

 

Contudo, na questão dos Rohingya, Suu Kyi não conta com o apoio do seu povo. A maioria da população de Myanmar segue o mesmo sentimento discriminatório, considerando que são imigrantes ilegais e terroristas. Ora, Suu Kyi é uma política extremamente inteligente e sabe que não tendo a única força que a sustenta e não sendo detentora de poder efetivo, qualquer intervenção sua no sentido de pôr fim à violência contra os Rohingya seria à partida um fracasso e colocaria em causa o seu capital perante o povo. Aung San Suu Kyi é uma líder entre a espada e a parede. Para quem conhece a sua história, custa ver esta transformação contrária aos ideais inspiradores que defendeu. Mas ela não pode esquecer, porque o mundo não esquece, que é um ícone de resistência e de luta pelos direitos humanos. Foi isso que lhe valeu o Prémio Nobel da Paz. Mesmo não tendo poder para acabar com o genocídio em curso no país de que é, de algum modo, líder, tem o dever de se opor moralmente e de mobilizar o que estiver ao seu alcance para proteger todos os que estão sob o seu governo. Até porque a luta pelos direitos humanos não é feita de opções fáceis ou consensuais. Talvez por isso haja já quem defenda que o Prémio Nobel lhe seja retirado. Aung San Suu Kyi pode ficar para a História como a mulher que passou de símbolo dos direitos humanos a líder que permite uma limpeza étnica no seu próprio país.

 

Mais informação:

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Myanmar: Who are the Arakan Rohingya Salvation Army?

Aung San Suu Kyi: From human rights heroine to alienated icon

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