Referendo na Catalunha: legitimar através do martírio?

Hoje é dia de eleições autárquicas em Portugal. Mas por muito apreço que tenha pelo dia e a noite eleitoral – e tenho muito – hoje não haverá plebiscito mais emocionante do que o referendo catalão. Concorde-se ou não com a independência, o governo central está a gerir a situação da pior forma e os independentistas estão a aproveitar da melhor maneira essa má gestão. O movimento separatista catalão poderá ser legitimado como mártir e não pela vontade do povo. As ruas da Catalunha podem transformar-se hoje em rios de sangue.

Quase tudo é discutível na questão da independência da Catalunha. Até a existência de uma maioria representativa a favor da mesma. Nas últimas legislativas regionais em 2015, só 47,8% do eleitorado votou em movimentos separatistas, enquanto que 41% escolheu candidaturas defensoras da unidade de Espanha. Números não muito longe do inquérito realizado em Julho deste ano pelo Centro de Estudos de Opinião da Generalitat (governo catalão), que atribuía 41,1% ao sim e 49,9% ao não pela independência. Indiscutível é que o referendo, realizado nestes moldes, é ilegal à luz da Constituição espanhola. O que não quer dizer que os catalães não tenham o direito de se pronunciar, sobretudo tendo em conta a história da região. E muito menos significa que as autoridades centrais devam fazer uso da força e da violência contra os ainda seus concidadãos para reprimir esta consulta popular.

Mariano Rajoy está a ser tudo menos inteligente na gestão desta crise. É claro que o primeiro-ministro nunca iria deixar nada sobrepor-se à soberania nem à lei fundamental espanhola. Mas a sua intransigência e aa medidas extremadas de prisão de dirigentes catalães, de apreensão de urnas e boletins de voto e de encerramento de locais de sufrágio são perigosos rastilhos que inflamam quem luta por uma causa tão apaixonante como é qualquer questão independentista. E corre o risco de plantar a semente da revolta em quem não é a favor da independência, pelo facto de proibir e oprimir. Quem não percebe isto não percebe nada de política nem de sociedade.

Carles Puidgemont e os separatistas catalães sabem que têm na inépcia de Rajoy um trunfo para trazer visibilidade e adeptos para a sua causa. Se os governos espanhol e catalão chegassem a acordo para que ocorresse uma consulta popular pacífica, ainda que não vinculativa, à semelhança do que aconteceu em 2014, provavelmente o resultado seria uma vitória do não e tudo voltaria à normalidade no dia 2 de Outubro. E isso poderia ser um ponto de partida para deixar amadurecer um futuro acordo para uma revisão constitucional que permitisse que a Catalunha se viesse a tornar pelo menos um estado federal, com maior autonomia, permanecendo ainda na União Europeia. Assim, provavelmente o resultado deste referendo será uma vitória retumbante do sim, mas à custa de uma fraca participação de eleitores a favor da unidade de Espanha, ou porque terão receio de se apresentar nas mesas de voto, ou porque se recusarão a participar para não legitimar o ato.

Dos independentistas espera-se uma forte mobilização para aceder às mesas de voto. A reação das autoridades centrais de Espanha determinará todo o processo, bem como a sua articulação com os Mossos d’Esquadra. A tensão está ao mais alto nível e qualquer passo em falso poderá transformar o referendo num lamentável banho de sangue, que dará força à causa independentista. Mas tudo o que envolva confrontos entre civis, entre polícia e civis e entre polícias só servirá para abrir mais feridas entre catalães e espanhóis e fechar mais portas ao diálogo.