Falemos de Estado, mesmo que falhe

O Estado falhou para com os cidadãos. Esta foi a frase que mais se leu e ouviu nos últimos meses, nos plenários parlamentares, nas conversas de café, nos jornais, nas sábias análises de experientes comentadores, nas ternas trocas de mimos entre políticos. Mas, afinal, em que é o que o Estado falhou?

Mais de cem vidas inexplicavelmente ceifadas pelas chamas. E agora até o ataque de uma bactéria num hospital está metido dentro do saco das falhas do Estado. Após muitos tropeções, o Governo lá aprendeu, à força de puxões de orelhas do provedor dos afetos, que à falta de melhor mais vale ir pedindo desculpas. Isso cai sempre bem e vamos andando todos enredados em ternuras enquanto se adiam as soluções necessárias.

Mas o que mais enternece neste discurso é que quem hoje rasga as vestes com as falhas do Estado foi quem quis menos Estado. Foi quem quis, e quer, reduzir o papel do Estado e liberalizar a iniciativa privada e individual, porque cada um deve ser responsável por se bastar a si próprio e por se proteger a si e aos seus. A falha do Estado foi do Governo anterior PSD/CDS que o depauperou e cortou cegamente nos serviços que deve oferecer aos seus cidadãos, falha essa que foi perpetuada pelo atual Governo PS. Este é o e(E)stado a que chegámos.

Há fatores incontroláveis e há deveres individuais a que ninguém se pode furtar. O Estado nunca poderá proteger os seus cidadãos de tudo. Nem deve em circunstância alguma exercer sobre eles um poder absoluto. A fronteira entre pouco Estado e demasiado Estado já foi cruzada noutras latitudes e noutros quadros da História, mas da qual estamos felizmente bem longe. Mas é bom que se discutam as falhas do Estado. Para pensarmos se queremos realmente viver com menos Estado e com menos solidariedade e proteção, num mundo talvez mais de costas voltadas, com mais assimetrias entre classes e mais fossos entre interior e litoral. Onde cada um se safa por si.