O que levamos de 2017

 

Eis que 2017 nos brinda hoje com o seu derradeiro dia e nos proporciona o momento da praxe de fazermos o balanço do ano que ora finda. É um cliché demasiado gasto, bem sei, e já todos os jornais, canais televisivos e redes sociais nos encheram a paciência com revisitações saudosistas. Num país onde não falta gente a dar opinião, é agora a vez do Espaço Liberdade. Mesmo que estejam cheios de acontecimentos e personalidades do ano, façam-me lá o obséquio, que eu prometo que ainda vão a tempo de abrir o champanhe.

 

O ano de 2017 destaca-se por ser um ano de viragem, tanto no plano nacional como internacional. Cá dentro, este foi sem dúvida o ano em que a Geringonça libertou algum fumo negro. Pode não ter caído em desgraça, mas foi mais grave do que perder o estado de graça. O elo mais fraco desta maquineta de três peças e meia foi o Governo, colocado na berlinda por um Estado que não soube proteger os seus cidadãos. Refiro-me, evidentemente, aos incêndios de Junho e Outubro – os acontecimentos mais marcantes deste ano para o país –, em que pereceram mais de uma centena de pessoas e que deixaram um cenário de vítimas mortais e de destruição incompreensível e inédito. E foi também o ano em que as greves e a contestação social voltaram às ruas.

 

Mas não foi só o Governo que se soltou das engrenagens: o PCP, que sempre foi o parceiro mais reticente desta solução parlamentar, está agora talvez com um pé fora e outro dentro, escaldado pelos resultados das eleições autárquicas. E o Bloco de Esquerda, apesar de ir conseguindo várias concessões por parte do PS, como o adicional ao IMI, a integração dos precários do Estado e o novo regime contributivo dos recibos verdes, ficou deveras melindrado com o volte-face dos socialistas na altura da votação sobre a taxa das energias renováveis. A Geringonça já não funciona com a mesma ligeireza e nos dois anos que restam espera-se que Catarina e Jerónimo tornem a vida de Costa mais difícil e atendam mais àquilo que pensam ser as expectativas dos seus eleitorados. Contudo, não é expectável que algum deles quebre a Geringonça, porque sabem três coisas: 1) apesar dos deslizes do Governo, a maioria dos portugueses prefere manter o acordo das esquerdas do que o regresso da direita; 2) o partido que quebrar os acordos sairá penalizado pelo povo; 3) em caso de desacordo, o PS muito provavelmente sairia reforçado e com maioria absoluta, sem necessidade de apoios.

 

Se há um ano escrevi que “as danças e contradanças entre Belém e São Bento correm de feição”, em 2017 percebemos que Marcelo e Costa pisaram-se um ao outro. Muitos foram os puxões de orelhas, os recados, as antecipações: aconteceu na questão de Centeno e das SMS, dos incêndios, de Tancos e até do Orçamento de Estado para 2018. Quase sempre com o Presidente da República (PR) habilmente a sair por cima. De Belém, Costa não pode esperar bons ventos: Marcelo já mostrou que tem espinhos e agenda própria, onde a agenda socialista só caberá enquanto não prejudicar a sua e a do seu partido. E a convivência só não será pior porque o próximo presidente do PSD será Rio ou Santana e não alguém do agrado do PR.

 

No plano internacional, 2017 foi o ano em que o mundo inteiro aprendeu a viver ao lado de um louco. Assim é ter Donald Trump como presidente da maior potência mundial. E assim vimos os EUA retirarem-se de cena como líderes de uma série de matérias, como acordos comerciais, energias renováveis e alterações climáticas, e ganharem terreno nas maiores polémicas, como as relações com a Coreia do Norte e o recente anúncio da mudança da embaixada de Israel para Jerusalém, provando que um homem só é capaz de dar origem à terceira Intifada. É impossível prever o que quer que seja para Trump em 2018. Mas vamos com certeza continuar a ver a China a tomar lenta e silenciosamente o lugar dos EUA como potência mundial, e a Rússia a estender a sua influência no Médio Oriente, para complicar ainda mais a dinâmica da região.

 

Venha de lá o champanhe! Feliz 2018!