Os dois caminhos do Ronaldo do Eurogrupo

Foi o acontecimento desta semana para Portugal. Depois de António Costa fazer que o segurava cá e de muitos, incluindo o Nostradamus da SIC, terem dado o caso como uma brincadeira do 1 de Abril, a verdade é que Mário Centeno foi mesmo eleito presidente do Eurogrupo. Teve de se sujeitar à segunda volta, não fosse o tuga achar que isto eram favas contadas, mas Dijsselbloem já deixara escapar que seria o SuperMário a assinar o golo. Na terra dos campeões europeus, o PS ainda não parou de lançar foguetes, enquanto que os seus parceiros parlamentares não se cansam de desdenhar da conquista. Mas olhando para o futuro, o que significará a eleição de Centeno? Novas oportunidades ou condicionamento para Portugal? Um novo paradigma ou uma fantochada na União Europeia?

 

Portugal tem feito uma recuperação económica extraordinária, isso é reconhecido internacionalmente. E tem-no feito rejeitando completamente a TINA (there is no alternative) a que a troika condenou os países sob assistência financeira: apesar da política do Governo de António Costa ser ainda de contenção, é muito diferente que o esforço incida sobre grandes capitais e sobre o consumo (que podemos evitar) do que sobre os rendimentos do trabalho e as prestações sociais – portanto, ao contrário do que dizem PSD e CDS, o Governo PS está a fazer diferente do pograma da troika. Esta recuperação económica, orquestrada pelo ministro Mário Centeno, permite que Portugal se posicione hoje de forma mais significativa nas instituições económicas europeias, e foi isso também que permitiu a eleição de Centeno.

 

Tendo em conta a posição que Portugal conquistou, a escolha do ministro das Finanças português para presidente do Eurogrupo pode ter duas agendas possíveis. Uma seria fazer passar uma imagem de abertura a políticas menos austeritárias, com uma mensagem implícita de tranquilidade para os chamados países periféricos (algo que pode ser fundamental numa altura em que terá de se negociar a saída da Grécia de um processo de resgate que assumidamente correu mal), mas almejando manter tudo na mesma: um Eurogrupo a mando da Alemanha e da França (e também do secretário austríaco, como denunciou Varoufakis), pouco transparente e pouco regulado, onde o presidente seja facilmente manobrado pelos grandes tubarões. Nesse caso, Mário Centeno seria meramente um fantoche, à semelhança de Durão Barroso (espera-se que pelo menos não tão medíocre) e o único prestígio para Portugal seria o de ver um nome português à frente de um alto cargo internacional. Neste cenário, o receio é grande de que Centeno passe a ser um ministro das Finanças condicionado pelas decisões emanadas do Eurogrupo que venham em contracorrente com as políticas do Governo português. É aqui que Portugal teria mais a perder com a ida de Centeno para o Eurogrupo – e resta saber se António Costa, Centeno e a equipa portuguesa das Finanças teriam a coragem e o jogo de cintura necessários para continuar a fugir à TINA de forma airosa.

 

Contudo, a eleição de Mário Centeno pode significar mesmo uma vontade de mudança na União Europeia (UE). Não passa de um pequeno passo, é certo, onde o ministro português não navegará um mar calmo, mas contará com certeza com obstáculos dos pesos pesados de sempre: Alemanha, França, Luxemburgo, Áustria, Finlândia, Holanda. O melhor que Centeno tem a fazer é procurar o apoio dos países do Sul para equilibrar as forças dentro da instituição. Tendo em conta a transição de governo alemão (e Schäuble já disse que não contem com ele como ministro das Finanças novamente), uma mudança de paradigma no Eurogrupo nesta altura faz todo o sentido, como ponto de partida para uma mudança da própria UE.

 

Nunca acreditei que ter um português num alto cargo internacional trouxesse vantagens diretas para o país, a não ser o prestígio. Com Mário Centeno não será diferente. E se a prestação for como a de Durão Barroso, então por favor nem saia de casa. Não subscrevo também o receio de que as Finanças portuguesas sejam descuradas: a atual equipa que acompanha Centeno no Terreiro do Paço tem boa capacidade para colmatar as ausências do ministro e, além disso, Mário Centeno já tem de atender a uma reunião mensal do Eurogrupo. O que me preocupa é o que se pretende de Mário Centeno à frente do Eurogrupo. Seria bom que a estratégia fosse de facto a de mudança, mas não consigo ainda sentir na UE o sopro desses ventos. Receio mesmo que que fiquemos com um ministro condicionado e que ao leme da Europa continuem os mesmos dois ou três de sempre, escudados por uma espécie de Ronaldo sorridente. Por cá, isso reforçará a agenda anti-austeridade dos partidos de esquerda, mas esvaziará o discurso da direita, seja qual for a nova liderança do PSD.