Ser médico não é esta espécie de coisa

 

O que é a medicina? O que é ser médico? O que devemos dar e esperar deste modo de vida que, sim, fomos nós que escolhemos, com mais ou menos conhecimento, com mais ou menos expectativa?

 

Uns dirão que é uma missão e que o médico deve ser abnegado e dar tudo de si em prol dos doentes. Outros dirão que é uma profissão como qualquer outra, com os mesmos direitos e deveres dos demais trabalhadores.

 

Não sei dar a resposta. Não sei dizer o que é ser médico nem o que é a medicina. Mas sei dizer o que não é.

 

Fazer medicina não é fabricar números. Não é fazer episódios de urgência que o Estado paga a peso de ouro ao hospital e que de urgente não têm nada. Não é ser pressionado para prescrever exames desnecessários e antibióticos para infeções virais. Não é ver os utentes que vão à urgência duas e três vezes na mesma semana porque não têm médico de família ou porque não sabem o que fazer em caso de febre ou gripe ou simplesmente porque é fácil ir à urgência. Não é ver as consultas dos doentes crónicos desmarcadas e substituídas por trabalho na urgência.

 

Ser médico não é ser desumano nem ser tratado com desrespeito e desumanidade. Não é ser insultado por utentes e familiares. Não é asfixiar com urgências de 24 horas dia sim dia não e convalescer de exaustão dia não dia sim. Não é um braço de uma linha de montagem que “produz” 40 ou 50 “peças-doentes” por urgência sem tempo para de facto olhar e pensar sobre a pessoa que se tem à frente. Não é ser pisado e humilhado pelas chefias, obrigado a fazer mais e mais horas extra e a aceitar quaisquer condições de trabalho, porque se tu não quiseres há mais quem queira. Não é não estar presente para a família e amigos e não estar disponível mesmo quando se está presente. Não é chegar a casa após mais um banco extenuante e esconder da família lágrimas de cansaço e de raiva porque a profissão que escolhemos nos rouba a vida aos poucos.

 

Não foi esta a medicina que eu escolhi. Não foi esta a medicina que eu aprendi. Ser médico não é esta espécie de coisa em que fazem de nós pequenas peças sem alma e sem pensamento numa máquina fazedora de números e de dinheiro e de opinião pública. Ser médico ainda é tratar pessoas, salvar vidas, combater doenças. De que estamos à espera para sair da linha de montagem a que estamos condenados e lutarmos pela humanidade e dignidade que merecemos?