“Pensei que a minha mãe já estava morta” – o retrato degradante de um serviço de urgência

Uma amiga, médica, perdeu recentemente a mãe. A senhora, já muito idosa, acamada, com uma doença crónica debilitante, necessitou de cuidados hospitalares nos últimos dias de vida. O que a minha amiga me contou sobre a assistência prestada à mãe, e que partilho aqui com a devida autorização, deixou-me com um misto de revolta e de profunda tristeza. Este é um retrato degradante, que ouvi em primeira pessoa, daquilo em que se transformaram os serviços de saúde no nosso país. Sei que não é uma novidade, nos últimos tempos tem havido vários relatos, até por parte de profissionais de saúde, das condições deploráveis que se vivem atualmente em muitos serviços hospitalares, sobretudo nas urgências. Mas infelizmente, é por vezes necessário sentirmos a realidade nua e crua para sermos tocados pelo que ela realmente significa.

 

Quando a minha amiga foi avisada de que a mãe se encontrava em estado terminal, deslocou-se imediatamente até junto dela. O que implicou uma viagem longa, uma vez que vive longe. Quando conseguiu finalmente chegar ao hospital, público, a senhora estava no serviço de urgência há mais de 24 horas. O que ela me descreveu desenhou uma imagem tão vívida, que foi quase como se tivesse lá estado. A urgência estava apinhada de macas, encostadas umas às outras, que ela teve de desviar para conseguir chegar até junto da mãe. E quando lá chegou, encontrou a mãe inconsciente, não reativa, fria, cianótica. “Pensei que a minha mãe já estava morta”, disse a minha amiga. Tinham-lhe dito que a mãe tinha hipoxémia e hipoglicémias, mas o tubo de oxigénio estava desconetado da rampa e o balão de soro glicosado tinha ficado ficado vazio não se sabe quando – havia apenas uma enfermeira para quase uma dezena de doentes.

 

Mas as dificuldades não se ficaram por aqui. Mesmo tendo percorrido uma enorme distância para poder acompanhar a mãe nos seus últimos momentos, por várias vezes quiseram impedir a minha amiga de permanecer junto da mãe no serviço de urgência. Isto apesar de existir uma lei desde 2009 (última versão Lei nº15/2014 com as suas alterações no Decreto-Lei nº 44/2017) que confere o direito ao acompanhamento dos utentes nos serviços de urgência do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

 

A mãe permaneceu quatro dias numa maca na urgência nestas condições. Várias vezes a minha amiga suplicou a médicos e enfermeiros que lhe arranjassem uma cama numa enfermaria onde ela pudesse terminar os seus dias com alguma dignidade. Mas outros doentes, mais jovens e com mais possibilidades de sobrevivência, passavam constantemente à frente na lista de prioridades. Após quatro dias, lá conseguiram uma vaga numa enfermaria. E a senhora pôde terminar os seus derradeiros dias com algum conforto.

 

Não consigo deixar de me comover com o relato da minha amiga. E sobretudo de me indignar. Os nossos serviços de urgência parecem hoje cenários de guerra ou de países de terceiro mundo. Num país onde tanto se investiu e evoluiu em matéria de cuidados de saúde, como podemos ser obrigados a ter de escolher entre acudir a quem tem hipóteses de se salvar e proporcionar o último conforto a quem parte? O SNS não pode negar aos cidadãos a dignidade no momento da morte – isso são cuidados básicos. Estamos a assistir à completa desumanização no SNS, à negação dos mais básicos direitos do ser humano. Não quero isto para o meu país, para mim nem para os meus.