Se fôssemos o Stephen Hawking, também queríamos o Serviço Nacional de Saúde

 

Stephen Hawking despediu-se deste mundo na passada quarta-feira dia 14 de Março. Mas o mundo não se despediu dele. O seu génio perdura no grandioso legado que deixa à humanidade na área da física e da cosmologia. Mas ficam também a lição de vida e o dom da superação. Hawking lutou contra uma doença degenerativa e incapacitante e recusou que esta lhe condicionasse por completo a sua forma de viver. Mas sem o National Health Service (NHS), o serviço de saúde público britânico, o físico inglês provavelmente não teria sobrevivido. E certamente não teria tido acesso aos tratamentos e ajudas técnicas que lhe possibilitaram continuar a desenvolver o seu trabalho.

 

Ainda que tivesse a sorte de pertencer à pequena percentagem de doentes com esclerose lateral amiotrófica que podem sobreviver várias décadas, o físico britânico sabia que nem tudo era sorte. O NHS foi o suporte deste homem quando foi submetido a uma traqueostomia, a tratamentos para as diversas infeções respiratórias e quando necessitou de apoio aquando da perda da marcha e da restante função motora, bem como da fala. Sem o NHS, gratuito e acessível a todos, nada disto seria possível. Stephen Hawking não teria prosseguido a sua carreira de cientista, não teria sido professor universitário e ensinado milhares de alunos e não nos teria deixado o conhecimento e a inspiração de indagarmos o Universo. E tinha perfeita consciência disso. “I wouldn’t be here today if it were not for the NHS”, disse Hawking em declarações ao The Guardian. “I have received a large amount of high-quality treatment without which I would not have survived”.

 

Com o cenário de cortes orçamentais de que o NHS tem sido alvo, à semelhança do Serviço Nacional de Saúde (SNS) português, o cientista britânico empreendeu uma acérrima defesa a favor do serviço de saúde público britânico. Em 2017, num discurso na Royal Society of Medicine, responsabilizou o ministro da Saúde britânico, Jeremy Hunt, pela desorçamentação e pela privatização da Saúde e criticou os gastos com empresas de trabalho temporário. Recentemente, foi um dos subscritores de uma ação judicial contra a introdução de accountable care organisations, que o físico temia que fossem o primeiro passo para a privatização do NHS.

 

Stephen Hawking fez uma excelente leitura da problemática no seu país. Poderia ter feito a mesma leitura em Portugal, onde a crise no SNS vai pelo mesmo caminho. Hawking Percebeu bem a importância de um sistema de saúde público gratuito e acessível a todos, que investe nas pessoas sem olhar aos lucros. Porque podemos um dia vir a ser ou a ter um Stephen Hawking na família, ou talvez sejamos simplesmente uma pessoa sem qualquer capacidade extraordinária – mas como seres humanos iguais que somos devemos ter as mesmas oportunidades de saúde e de assistência na doença. É para isso que o SNS existe e é por isso que deve continuar a existir.