Até quando se deixará morrer a Síria?

A guerra na Síria dura há demasiado tempo e há muito que foram ultrapassadas linhas vermelhas e por diversas vezes. O mundo choca-se com números e imagens dos que sofrem, dos que fogem e dos que morrem. Mas o mundo não faz nada para o impedir.

 

No passado sábado 7 de Abril terá ocorrido mais um ataque com armas químicas na Síria, em Douma. As imagens de civis em asfixia e os testemunhos dos profissionais de saúde no local não deixam margem para dúvidas. Não foi o primeiro e provavelmente não será o último, a continuar este conflito que ninguém parece interessado em parar. Na verdade, segundo uma investigação das Nações Unidas, já terão ocorrido mais de uma dezena de ataques químicos desde o início da guerra civil na Síria.

 

Os vários líderes internacionais têm desenhado uma linha vermelha com um traço demasiado ténue. Obama, que não só foi uma lufada de esperança para o mundo como trouxe alguns feitos em matéria de diplomacia externa, deixou que a linha fosse pisada sem nada fazer. Trump lança fanfarronices diariamente e ataques que visam derrotar o Daesh, mas que vão também atingindo indiscriminadamente alguns civis. Putin apoia Assad, e em nome do controlo geopolítico da região, não se coíbe de fazer perecer vidas humanas. Erdogan invade os países da região com o pretexto de eliminar os curdos. E os dirigentes europeus – a quem não chamo líderes, porque líderes não são os que punem por défices, mas sim os que têm coragem de assumir compromissos e de trilhar caminhos por vezes duros mas de viragem – viram a cara para o lado cobardemente, enquanto assinam a construção de um novo gasoduto entre a Alemanha e a Rússia e pagam à Turquia para não deixar vir refugiados sírios para a Europa.

 

As soluções para os conflitos devem sempre ser diplomáticas. Mas o povo sírio enfrenta atualmente, e já há algum tempo, uma situação de emergência, sem que se vislumbre uma solução diplomática em tempo útil neste complicado tabuleiro de xadrez geopolítico e de interesses. Seria urgente a entrada de uma força militar de paz, internacional. E a única que teria legitimidade seria uma força das Nações Unidas. Contudo, a configuração atual da ONU, que é a mesma desde a sua fundação, torna a organização completamente inútil. Ao permitir o direito de veto a alguns membros do Conselho de Segurança, direito que a Rússia sempre usará se estiver em causa uma ofensiva militar que possa beliscar o seu aliado Assad, a ONU nunca poderá oferecer garantias de defesa e de respeito pelos direitos humanos a nenhum estado-membro. Por isso, é urgente uma reforma da ONU e essa deveria ser a prioridade do secretário-geral António Guterres.

 

Não sendo possível uma intervenção militar da ONU, os países ocidentais avaliam a possibilidade de uma força internacional de coligação. Trump, na sua habitual fanfarronice, fez logo saber que os mísseis iam a caminho, mas depois disse que um ataque à Síria pode acontecer, ou não. Angela Merkel já se colocou de fora e disse que a Alemanha não participará numa ação militar. O presidente francês veio dizer que tem provas de que o regime de Bashar al-Assad utilizou armas químicas no ataque da semana passada. Mas não revelou que provas são essas. Ou Macron apresenta dados mais concretos ou corremos o risco de que os países embarquem numa segunda cimeira das Lages.

 

É urgente um fim para a guerra na Síria. Os presidentes e primeiros-ministros não podem continuar a ser cúmplices por passividade da morte de milhares de pessoas e da destruição de um país. Têm de tomar posições firmes, reformar o que há a reformar e não limitarem-se a tímidas declarações inconsequentes. Mas, qualquer que seja a solução, é importante que respeite o equilíbrio do povo sírio. Não nos esqueçamos que os vários movimentos jihadistas ao longo da História recente têm resultado de intervenções internacionais (quase sempre com os Estados Unidos presentes) que perturbam a ordem local e deixam atrás de si rastilhos acesos.