Levemos a sério a extrema-direita

Depois da ameaça em França, na Alemanha e na Holanda e de ter chegado ao governo na Áustria, na Hungria e em Itália, é a vez de a Suécia enfrentar o seu fantasma da extrema-direita, que este domingo se tornou a terceira força mais votada nas legislativas do país.

 

A ascensão da extrema-direita no Ocidente é um assunto sério. Não é um capricho passageiro de uma sociedade adolescente com a sua identidade em construção, que não sabe o que quer, de onde vem nem para onde vai. Nem é tão-pouco um fenómeno. É uma evolução política, social e económica que se vem desenhando há décadas. Mas acho que é lícito dizer que a maioria do mundo foi apanhada desprevenida. Aquela maioria que em 8 de Novembro de 2016 adormeceu achando que conhecia uma certa ordem das coisas e acordou no dia da seguinte com o mundo ao contrário e Trump eleito presidente dos Estados Unidos. Não a vimos surgir, por distração, por soberba, por embrutecimento ou simplesmente porque we didn’t give a damn.

 

Nos países europeus, os atuais partidos de extrema-direita têm origens e passados diversos. Mas o seu discurso centra-se num foco comum, seja qual for o país ou a história do seu nacionalismo: a imigração. Sobretudo de origem islâmica. A guerra na Síria desde 2011 e o agravamento da instabilidade no Médio Oriente vieram dar maior visibilidade aos fluxos migratórios que já existiam, incluindo desde África, mas que se intensificaram desde então e puseram a nu o pior dos europeus: a falta de humanidade. Não falo sequer em solidariedade – isso seria o gesto que faltou, e que continua a faltar, para equilibrar as economias dos estados-membros da União Europeia, onde persistem mecanismos que promovem uma Europa a duas velocidades. Os europeus vêem-se numa encruzilhada entre direitos humanos e economia: acolher os migrantes, que procuram uma vida mais digna e segura; ou proteger o acesso aos empregos, educação e estado social?

 

Nos Estados Unidos, a distinção entre esquerda e direita nunca foi tão clara como no velho continente. Donald Trump é para mim uma figura ainda extremamente desconcertante, indefinida, incaracterística, escorregadia. Há momentos em que parece ser uma coisa e noutros o seu contrário. Não saber o que ele é deixa-me desconfortável – e julgo que ao mundo também.  Seja como for, a eleição de Donald Trump cavalgou uma onda indiscutivelmente nacionalista e, pode-se dizer, populista (se bem que este termo é ainda um grande chapéu onde cabem muitos conceitos). Mas os EUA não são a Europa. O discurso aqui, embora inclua a imigração, versa também outras matérias, que fazem todo o sentido para os americanos. A população-alvo está bem estudada: o americano branco, pobre, com poucas habilitações. Mas não nos esqueçamos também dos cidadãos de classe média, com o ensino secundário ou alguns até com ensino superior, que estão desempregados ou têm empregos precários e mal pagos; nem dos grandes empreendedores que subiram a pulso e hoje vêem parte dos seus impostos serem aplicados na NATO para defender outros países ou em programas como o Obamacare para os mais desfavorecidos.

 

A estratégia da extrema-direita coloca a tónica no medo. O medo do outro (seja o imigrante islâmico ou hispânico), o medo da perda identitária (diferentes padrões culturais), o medo da pobreza, o medo do desconhecido. O medo é algo irracional, capaz de despertar reações muito viscerais mesmo nas pessoas mais moderadas e racionais. Uma arma mesquinha e, por isso mesmo, difícil de combater numa luta limpa e justa.

 

O que os partidos “do sistema” não souberam ver foi que existiam grupos que não se reviam nos seus discursos e que foram ficando esquecidos e à mercê de outras retóricas. Os partidos de extrema-direita tiveram a esperteza e o oportunismo de falar para essas pessoas e de dizer o que elas queriam ouvir. Mérito dos últimos, com certeza, e erro, grande erro dos primeiros. Veremos ainda quão elevado será o preço.

 

A extrema-direita não deve ser desvalorizada. Há que combatê-la, sim, e com urgência. Mas ignorá-la ou escorraçá-la dos fora políticos é um erro. Como também não é certo incluí-la nos espaços governativos. Mandar calar a extrema-direita será fazer o que temos feito até hoje: dar-lhe outros palcos até que ela cresça e venha tomar o palco principal. A melhor forma de a enfraquecer é desmontar os seus argumentos, refutá-la, pôr a descoberto a sua História, as suas mentiras e as suas falácias. Publicamente e para todos.