Espaço Liberdade precisa-se

A consciência do que se passa no país e no mundo, e de que somos mais do que meros espectadores da sociedade, levaram-me a criar o Espaço Liberdade, em Março de 2014. Um blogue de opinião, em total liberdade, mas também com responsabilidade.
Os assuntos versados são variados, desde sociedade à política. Mas sendo médica, é impossível não ser a saúde um dos temas de eleição, em apologia à defesa do SNS.
Lembro-me de ouvir os meus pais contar como era viver naqueles tempos de obscuridade e censura, em que tudo lhes era negado: o pão, a paz, o saber, o falar e também o pensar; mas este, por mais força e repressão que se use, não se pode proibir. Lembro-me de o meu pai contar como tinha sido a guerra em Angola e de a minha mãe recordar os anos do lado de cá sentindo-o do lado de lá.
E depois veio a Revolução, que tomou para si o dia 25 de Abril de 1974. E foi tão avassaladora que, a partir de então, o dia 25 de abril será sempre o dia do 25 de Abril.
Lembro-me de os meus pais contarem como as ruas de Lisboa se encheram de gente, como se gritava “Vitória!” e como uma criança plantava um cravo na espingarda de um soldado, num abraço de igualdade e fraternidade entre um povo humilhado e despojado, mas que afinal não perdera a herança ancestral de coragem que semeara pelos quatro cantos do mundo. Um sentimento misto de incerteza, mas também de esperança, porque tinham de lutar por algo melhor.
Lembro-me de os meus pais contarem como tinham vivido os dias, meses e anos seguintes, numa sucessão vertiginosa de acontecimentos, alimentada por uma fome de liberdade durante tantos anos roubada e inflamada por uma febre de justiça esquecida. Lembro-me de ouvir falar em reuniões e manifestações, e todos temos um pai, uma tia ou um vizinho que lá estava na linha da frente, todos eles um livro de história vivo e em primeira mão, aqui tão perto.
E ao ouvir estas memórias contadas com tanta emoção, partilhava um bocadinho da paixão que eles tinham sentido. E quase desejava ter estado lá naquele dia, ter ajudado à Revolução e à construção de um país melhor.
Agora, graças ao seu legado, não temos uma ditadura nacional nem uma repressão como a que os nossos pais tiveram. Mas vivemos perdidos num mundo de costas voltadas, numa Europa à deriva e num Portugal que se arrasta submisso.
Cabe-nos a nós, Filhos da Liberdade, não deixar morrer os valores que guiaram os nossos pais naquele Abril, e que muitos deles pagaram com a vida. Cabe-nos agora lutar e acreditar, como eles acreditaram.