Reflexos da deterioração: saúde é o setor com mais greves

A paz social que caracterizou a primeira metade da atual legislatura há muito que se esfumou. Os partidos de direita não se cansaram de criticar o sabor amargo de tanta pacificação, tendo ainda bem vincados na memória os aguerridos protestos anti-austeridade que tiveram de enfrentar. Contudo, a paz durou pouco. Desde 2017, o descontentamento tem subido de tom e as greves têm-se multiplicado em vários setores. Mesmo com o apoio da esquerda, o governo de António Costa já enfrentou sensivelmente o mesmo número de greves na Administração Pública do que o de Passos Coelho.

O Público tem um bom artigo sobre esta matéria. Após dois anos de governação dedicados a reversões e devoluções, a partir de 2017 as greves na Administração Pública dispararam. A diferença relativamente aos anos da troika, e que não é despicienda, é que todas as greves foram locais (ou setoriais), ao passo que em 2013 (o ano de crise mais profunda) houve 23 greves nacionais e 11 em 2012.

Nos setores afetados, no domínio da Administração Pública, temos os históricos: os professores e os transportes. Pouco habituais são os juízes (há 13 anos que não faziam greve), que este fim de semana anunciaram uma greve inédita de 21 dias. Mas o setor mais atingido pelas greves em 2017 e 2018 foi a saúde, o que merece reflexão.

As greves na Administração Pública têm refletido o desinvestimento de décadas e de sucessivos governos em cada um dos serviços públicos, cuja deterioração começa agora a revelar-se ─ desde a saúde à ferrovia, passando pela defesa e proteção civil. E no caso da saúde, o que vemos é ainda a ponta do icebergue. O que começámos por ver foi o imediato: falta de médicos, de enfermeiros e de outros técnicos, equipamentos obsoletos, instalações degradadas, caos nas urgências, demora inaceitável nos tempos de espera. Mas temo que a médio e longo prazo o que se desinvestiu no SNS vamos pagar caro em aumento de taxas de mortalidade e piores indicadores de saúde.